Renovar um bairro, renovar vidas

Casa Comunitária da Mouraria © Bárbara Mota

Começar o dia a ser feliz

Abrem o caderno, pegam no lápis e o sonho começa. Assim se inicia o dia na Casa Comunitária da Mouraria para as professoras Marta e Vânia que, às segundas, quartas e sextas-feiras ensinam o que de mais precioso se pode ensinar: ler e escrever.

Este projeto, que já existe desde o ano passado, conta agora com três cursos de alfabetização a serem dados durante a semana. Esta é uma enorme oportunidade para os moradores do bairro da Mouraria, dado que agora mais pessoas podem aprender a ler e a escrever, o que para muitos é “a maior riqueza” que lhes podiam oferecer, enfatizam os alunos.

Como tudo começou

A Associação Renovar a Mouraria (ARM) foi criada em 2008 para ajudar a requalificar o bairro e ao longo destes seis anos têm-se desenvolvido diversas ações junto da população com o objetivo de dar um novo rumo à Mouraria, de forma a melhorar as condições de vida de quem lá mora.

O plano de ação da ARM tem como base a inclusão e o convívio entre várias gerações. A Associação tenta também, com as várias atividades, abrir o bairro a quem não mora lá e para isso trabalha também na revitalização das tradições deste bairro lisboeta, como o Fado e os Santos Populares.

As iniciativas desenvolvidas pela Associação são muitas, como a implementação da Rota das Tasquinhas e Restaurantes e o lançamento do Rosa Maria, o jornal do bairro da Mouraria.

A Associação consegue promover estas e mais atividades, como é o caso dos cursos de alfabetização e de português, com alguns apoios, como as receitas que provêm da cafetaria da própria Associação. Estas aulas são ainda financiadas pelo Projeto Mouraria Integra, gerido financeiramente pelo Alto Comissariado para as Migrações, pelo Projeto MygranTour, financiado pela União Europeia, e pelo Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria, financiado pela Câmara Municipal de Lisboa.

No final de 2012, a ARM ganhou uma nova vida com a inauguração da Casa Comunitária da Mouraria. Esta Casa tem possibilitado promover outros tipos de atividades, como é o caso do Cinema VHS, que exibe todas as terças-feiras um filme em cassete VHS, dos que são oferecidos à Associação. Tem também como propósito fazer mais workshops de danças latinas, ballet, guitarra e fazer tertúlias para debater assuntos que envolvam o bairro e o país, num ambiente de diversão e música.

Aprender com amor

O objetivo de renovar este bairro começa naquela sala pequena, com meia dúzia de mesas brancas, umas quantas cadeiras, um quadro, uma caneta e pouco mais de dez alunos. Pessoas prontas para aprender o que a infância não lhes proporcionou: ler e escrever.

Nada passa ao lado naquelas duas horas de aprendizagem. Ainda antes de começar a aula já a excitação era muita. Fotografias corriam as mãos dos alunos que as iam divulgando uns aos outros e às próprias professoras com o orgulho que é possível ter quando se fala da família. Nelas estava parte da história de cada aluno. O amor marcava as conversas em redor de cada fotografia.

À sexta-feira revê-se a matéria dada durante a semana. Família foi o tema escolhido para uma das aulas. Mãe, pai, irmã, irmão, tia e tio: pequenas palavras que se tornaram gigantes quando estes alunos as aprenderam a escrever. Finalmente, sabiam escrever o nome de membros da família tão especiais para eles.

 Português: a língua de todos

Muda-se de curso, mudam-se as caras, mais mesas enchem a sala, que é a mesma que recebe agora o curso de português. Mais duas horas pela frente com um objetivo diferente: ensinar a língua portuguesa a quem escolheu Portugal para melhorar a sua vida.

Ensinar português a quem não conhece a língua é uma tarefa complicada, que a Professora Marta tenta descomplicar. “A primeira aula é sempre difícil. Eles não conhecem a língua portuguesa e eu não conheço a língua de cada um deles e isso torna difícil a comunicação.”, observa a professora. Mas superam-se as dificuldades com “a mímica, com os desenhos”, acrescentou.

Estas aulas são pequenas viagens pelo mundo. Lá consegue-se passar do chinês, para o libanês, sem esquecer países como o Bangladeche e o Senegal, passando também pela Nigéria.

Para estas pessoas, a língua portuguesa é uma língua completamente nova e por isso a viagem torna-se mais difícil, mas não impossível. Trata-se de ir ao simples da língua, com pequenas palavras como céu, tempo, chuva. Ver no quotidiano as palavras em português e repetir as vezes necessárias para ficarem presas à memória.

Ajudar a renovar

Os apoios financeiros têm sido uma grande alavanca para a Associação, mas também o voluntariado se mostra uma grande força para a ARM.

Qualquer um pode fazer parte e, mesmo que não queira ser voluntário, pode propor atividades que considere que a Associação deva desenvolver. Esta pretende assim desenvolver este bairro, de forma a mudar a sua imagem, e esta é também uma oportunidade para quem não vive na Mouraria de vê-la com outros olhos.

Este ano, a Casa Comunitária da Mouraria festeja o seu segundo aniversário. Como a Associação refere no seu sítio da internet: (http://www.renovaramouraria.pt/): “Dois anos passaram e os resultados não deixam dúvida, um Beco reabilitado e centenas de pessoas a usufruir de serviços permanentes de saúde, apoio ao estudo, apoio jurídico, alfabetização, português, integração social, e uma programação cultural constante, tudo de acesso gratuito. Foram criados 14 postos de trabalho e a Mouraria já é pequena para tantas atividades.”

Texto e Fotos: Bárbara Mota

 

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