Rui Gil: mais conhecido por ‘Senhor Rui da Papelaria’

Mariana Coelho/8ªColina

O seu nome é Rui Gil, mas para muitos é apenas “Senhor Rui” – pelo menos na Escola Superior de Comunicação Social é assim.

Este ano letivo, o 8ª Colina decidiu arrancar a rubrica Perfis ESCS com uma das personagens mais emblemáticas que percorrem os corredores da instituição: o Sr. Rui da papelaria. Apesar de ser conhecido por todos, poucos sabem mais do que o seu primeiro nome. A sua estadia na ESCS vai completar os 12 anos, pelo que está na altura de vos apresentarmos Rui Gil.

Nasceu em 1970 e foi a 30 de julho que fez 49 anos: é leão não só de signo, mas também de clube. No Sporting, para além de adepto, é jogador e seccionista. Já ganhou alguns campeonatos pelo clube graças ao seu hobbie – o bilhar três tabelas, um jogo com três bolas que requer particular perícia. Enquanto seccionista coordena toda a atividade desportiva da secção, como organizar convocatórias para jogos, coordenar os jogadores, planear atividades, organizar jogos.

Rui Gil tirou o curso de Contabilidade no ISCAL. “Na altura estava um pouco perdido”, conta. “Antigamente era muito complicado entrar para a faculdade e eu também não era um aluno com grandes notas” e o ISCAL “admitia mais alunos e tinha médias mais acessíveis.” Assim, acabou por ingressar lá, planeando pedir transferência para outro curso. No entanto, a vertente de negócio do curso acabou por o agarrar, pelo que não concretizou o plano. Foi também aqui que nasceu o interesse em ter o seu próprio negócio.

A ambição de criar uma empresa já estava presente, mas faltava saber por que área iria enveredar. Na tentativa de ajudar o pai, começou a tentar arranjar um part-time enquanto estudava. Foi a livraria Teorema, em Massamá, que o acolheu. Foi também nesta livraria que conheceu Carla Costa, que lá trabalhava a tempo inteiro. No fim do primeiro trimestre já era ponto assente que se tornariam sócios na abertura de uma empresa. Assim foi – e é – até aos dias de hoje.

Aos 20 anos, Rui Gil estudava Contabilidade no Saldanha e trabalhava em Massamá das 18h às 22h (quando não fazia um horário mais alargado). Nas horas vagas planeava a criação da sua empresa. Os dois colegas rapidamente se deixaram fascinar pelo movimento da loja, pela “ideia de ter um negócio próprio, de ter um grande sucesso e de podermos evoluir”. Dia 1 de setembro de 1992 decidiram tornar-se sócios e abrir a sua empresa própria, a JADE, que mantêm até ao momento.

 

Depois de passar as manhãs e parte das tardes na reprografia da ESCS, o Sr. Rui segue para a livraria do ISCAL, no Saldanha, onde cobre o horário pós-laboral. Mariana Coelho/8ªColina

Rui Gil fazia parte da Associação de Estudantes do ISCAL na secção Desportiva, o que lhe garantia acesso à livraria, cuja gerência lhe foi entregue. Com 400 contos (aprox. 2000€) e uma perspetiva de sucesso, deu-se a inauguração da JADE. Desde que Rui Gil entrou na livraria do ISCAL nunca mais de lá saiu. Está há 27 anos a desempenhar a função de “tapa-buracos”, afirma em tom de brincadeira. Depois de terminar o curso, inscreveu-se na Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas. Vai “fazendo umas coisas” numa empresa familiar, mas nunca passou disso.

Em 1996 expandiram a JADE ao abrirem uma livraria na Universidade Moderna: foi uma grande aposta, pois investiram milhares na duplicação do espaço da loja. Contudo, conciliando a falta de retorno com os escândalos que se sucederam, os sócios decidiram abdicar do projeto. O Governo decretou o encerramento da Universidade Moderna em 2008 devido, segundo o Expresso, a uma falta de viabilidade económico-financeira e a uma grave degradação pedagógica. De lá trouxeram os móveis e uma máquina impressora – não mais que isso.Viriam a estabelecer-se na ESCS.

Segundo Rui Gil, esta relocalização aconteceu “por oportunidade, por sorte”.  A JADE esteve presente numa Feira do Livro do Estoril em que marcou também presença a então responsável administrativa da ESCS, que sugeriu que entrassem no concurso para ocupar a reprografia da instituição. Seguiram a sua recomendação e acabaram por ganhar. Permanecem na ESCS desde o início de 2008: “Vamos aprendendo e conseguimos adaptar-nos à realidade da escola, ao tipo de trabalho que aqui nos é exigido”, explica o Sr.Rui. A sua sócia Carla Costa já não se encontra a trabalhar na ESCS devido à dificuldade em conciliar os horários.

Conta ao 8ª Colina que a sua rotina passa por sair de casa, em Queluz, “perto do Palácio”, às 8h da manhã e regressar às 22h. Depois de passar o dia na reprografia da ESCS, segue para a livraria do ISCAL, onde trabalha das 18h às 21h – “Temos de cumprir um horário que possa abranger um horário do pós-laboral”, esclarece. A sazonalidade dos dois espaços é a mesma, tal como o grau de exigência. Há muitos anos que trabalha 12h por dia e, como tal, o cenário de estar no último dia dos semestres a imprimir trabalhos até às 23h30 já se tornou comum. 

            “Os anos já começam um bocadinho a pesar”, então, de momento, o Sr. Rui conta com a ajuda de Bruno Cortes. Depois de trabalhar na JADE da ESCS, regressou para cobrir o horário das 16h às 20h30. “Há sempre aquelas alturas de mais trabalho, de mais movimento. Na altura de início de semestre, de entrega de trabalhos e de fim de semestre justifica-se ter mais uma pessoa para ter um atendimento mais rápido”, explica o Sr. Rui.  Bruno Cortes revelou ao 8ª Colina que gosta bastante de trabalhar com o Sr. Rui, pelo que, quando surgiu oportunidade, regressou para o part-time.

Como um dos seus fatores preferidos da ESCS, o Sr. Rui aponta a oportunidade de poder contactar com as pessoas mais novas, diz, “para não me sentir tão velho”. Na tentativa de conservar a sua juventude e de “participar na vida académica”, o Sr. Rui frequenta acontecimentos como os Arraiais, os CommieAwards ou até os eventos da Tuna. Relembra com muito carinho o momento que mais o marcou: os Commies de 2018, em que recebeu a distinção de “Impressora de Ouro”. Para si, “é um reconhecimento de um trabalho que é feito”. Durante a conversa com o 8ª na reprografia da ESCS, esteve a plastificar credenciais para o XVI Arraial ESCSito. Confessou-nos que talvez lá desse um salto nessa noite para ver o Quim Barreiros, de quem é fã. Recorda que assistiu a um concerto seu pela primeira vez em 1992 na Discoteca Lagar’s, em Braga.

O Sr. Rui tenta sempre estar presente nos eventos da ESCS. Ao fazê-lo, sente-se mais ligado à comunidade escsiana. Em 2011, levou a sua irmã, Ana, ao VIII Arraial ESCSito. Fotografia cedida por Rui Gil

Num desabafo, Sr. Rui confessa que o lucro já não é o que era. Muito se deve ao facto de as teses terem deixado de ser exigidas impressas, um negócio que era bastante rentável, mas que foi substituído pela entrega de pen’s. Nos últimos tempos, circulou um boato acerca da sua saída da ESCS. Quanto a isto, o Sr. Rui diz que, no dia em que sair, leva consigo “boas recordações, amizades e o sentimento do dever cumprido”. Tem plena noção de que é acarinhado pelos alunos: “Gosto muito de trabalhar aqui. Gosto muito da comunidade escsiana”.

            É uma comunidade que nunca esquece. Estar na ESCS há mais de uma década faz com que já tenha visto muitas caras passar pelos corredores. Já muitos alunos lhe pediram para imprimir aquele trabalho ou para comprar aquela sebenta. O Sr. Rui conta ao 8ª que é comum reconhecer alguns alunos em locais públicos: por exemplo, vê jornalistas que saíram daqui para a RTP, TVI, CMTV. Inclusivamente no outro dia foi à Assembleia Geral do Sporting e encontrou um ex-escsiano. “É sempre bom ver as caras que já passaram por aqui.

São muitos os alunos que chegam ao balcão do Sr. Rui. Uns anos mais tarde transformam-se nas caras que vê na sua televisão ou que encontra no meio da rua. Gonçalo Taborda/8ªColina

Rui Gil tem dois filhos: o Rui, com 20 anos, que estuda na Faculdade de Motricidade Humana, e a Mariana, que tem 11 anos. É casado há 25 anos com Ana Paula, que, por trabalhar no setor do Turismo, passa muito tempo fora. Não têm animais de estimação, mas, se algum dia tiverem, será um papagaio – o Óscar.

Rui Gil descreve-se como uma pessoa simples, simpática e discreta, que se rege por valores como a dignidade e a sinceridade. Para o seu futuro, almeja felicidade, saúde e o euromilhões ganho.

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