Samuel Úria encanta a Vila: “Eu sou um rapaz da província, isto para mim é um bocado irreal”

Para dar seguimento ao festival “Sons na Areia”, este ano a Câmara da Lourinhã decidiu voltar a apostar noutro reforço cultural, desta vez com “Sons na Vila”.

“Sinto que foi um bom começo, aliás, superou as expetativas. Tivemos casa cheia.” São estas algumas das palavras proferidas pela Coordenadora da Área da intervenção sociocultural do Sons na Areia, Mafalda Teixeira, chegado o fim do concerto de Samuel Úria.

Esta, que é a primeira de talvez muitas edições do festival, conta com grandes nomes do panorama musical português: Samuel Úria, FrankieChavez e Paus. Já a partir do primeiro concerto obteve-se a promessa de públicos calorosos e músicos empenhados nas próximas datas que se avizinham.

Quem se depara com o cartaz do festival pode estranhar, ao primeiro vislumbre, uma distância um tanto grande entre as três datas do evento (16 de fevereiro, 16 de março e 6 de abril). Esta foi uma maneira de “permitir que as pessoas tenham um tempo para poder programar a vinda a estes concertos”, afirma José Tomé, vereador da Cultura na Câmara da Lourinhã, no distrito de Lisboa.

Quando comparado ao seu antecessor, “Sons na Areia”, José Tomé sublinha que “este ano vamos numa perspetiva de crescimento e é gratificante perceber que o público adere”, e Mafalda Teixeira refere que “desta vez apostamos em nomes diferentes do panorama musical português, mais emergentes” com o objetivo de formar novos públicos.

Algo a destacar são os desafios de coordenação e organização que ficam muitas vezes esquecidos por parte de quem vê de fora. Mafalda Teixeira afirma que este ano “o maior desafio foi o cartaz”, sendo que o Sons na Vila procurou ser eclético ao “agradar vários públicos de várias gerações e nomeadamente o público familiar”, deixando “muitos de fora que seriam muito bons para um cartaz deste género.”

Já todas as cadeiras no Auditório da AMAL se tinham desocupado quando Samuel Úria, músico cabeça de cartaz,se disponibilizou para responder a algumas questões, sem mostrar quaisquer sinais de cansaço pelo seu fantástico concerto.

Samuel Úria, para os seus concertos de promoção do seu EP “Marcha Atroz”, é acompanhado por Miguel Ferreira em vez da banda que costuma levar consigo. (Inês Antunes)

Como foi dar o primeiro passo neste festival, sendo o artista que inaugura o cartaz? Sentes que foi de pé direito?

O que posso dizer é que tive um público extremamente caloroso, por isso acho que o primeiro passo do festival foi dado por ele e prevejo que quem vier atuar a seguir vá ter um público igualmente caloroso. Isso é sempre uma surpresa quando vamos tocar a sítios onde nunca estivemos. Vamos trazer coisas que, muitas vezes, são desabafos e há gente com generosidade para acolhê-los, brindar comigo e aplaudir-me, e isso deixa-me sempre um bocado comovido e com alguma estranheza porque duvido merecer esse acolhimento.

Quais são as músicas que mais te entusiasmam tocar?

Depende sempre do momento. Como disse, as canções às vezes são desabafos e um dia posso estar mais em contacto com qualquer episódio que se passou comigo e, então, quando estou no palco recordo-me, e quase que me comovo. Parece uma coisa muito “choninhas” de se dizer. Esse entusiasmo percebe-se quando a minha comoção se torna genuína e, depois, quando me apercebo de que ela também está a tocar algumas pessoas. Isso acontece de vez em quando e é sempre lucro porque são canções já cristalizadas em disco, que estão a ser transmitidas mais uma vez, mas que, de repente, parecem repetir o momento em que as escrevi, havendo agora pessoas a partilhar a minha dor ou a minha felicidade. E quando percebo isso parece que flutuo em palco.

Em outubro do ano passado lançaste o teu novo EP – “Marcha Atroz”. Como foi todo o processo desde a composição até ao lançamento?

 Para mim, em termos criativos, este EP apareceu na altura certa. Estava com alguma necessidade de escrever coisas novas. Ainda estava a dar concertos do meu disco anterior, que já tinha dois anos, e não estava propriamente saturado das canções porque elas renovam-se sempre em palco, mas tinha a necessidade de pelo menos provar a mim próprio que ainda não tinha perdido completamente a veia criativa, que conseguia fazer canções. Ainda sou conservador e continuo a pensar em álbuns e escrevo sempre muitas canções por atacado, mas escrever só quatro deu-me uma liberdade importante para poder concentrar-me melhor nelas. Explorou-se a maneira de captar os sons e a identidade das canções foi conversada com o meu produtor. Pode não ser o EP mais deslumbrante do mundo porque não havia preocupação em fazer um EP “orelhudo”, mas eu estou mesmo muito satisfeito porque a minha necessidade de fazer canções está traduzida naquelas quatro canções. Não ficou nada de fora e não está lá nada que eu não quisesse.

Sentes que obtiveste uma boa reação por parte do público?

Sim, sinto. É surpreendente. Não penso em fazer coisas absolutamente Pop nas quaisqualquer rádio pegue, desate a tocar e torne quase um sucesso para as discotecas. Por outro lado, neste registo autoral e muito confessional, tenho encontrado sempre ouvidos muito generosos que não só estão dispostos a ouvir as canções como estão dispostos a comentá-las. Recebo muitas mensagens nas redes sociais de malta a falar das canções, a dizer o que acham e percebi que existe esta proximidade com pessoas desconhecidas. Não acontece só em palco. Acontece também em quem consome as canções e os discos. E neste disco obtive também reações muito concentradas. Não me falavam de uma canção em específico, falavam-me um bocado do conjunto, que sendo curto é homogéneo e heterogéneo ao mesmo tempo. As reações foram mesmo ótimas. Acabo por estar numa situação um bocado privilegiada. Eu percebo que o meu público de eleição, as pessoas que mais entesouram aquilo que eu escrevo, são pessoas que já têm uma expetativade que exista um cunho muito próprio naquilo que eu faço e isso dá-me alguma responsabilidade para ser sempre sincero. É verdade que as pessoas não conhecem a minha vida e não sabem se estou a ser sincero ou não, mas eu sinto que isso transparece nas canções. Tento nunca desperdiçar palavras, não andar a meter coisas “a martelo” nas minhas músicas porque quando há essa honestidade, esse “esvaziamento” e“abrir da torneira” das coisas que ficaram cá a acumular, percebo que isso também se torna nas soluções musicais estéticas ideais para aquelas pessoas que eu já considero que são o meu público.

Colaboraste com artistas como o Manel Cruz e a Márcia. Haverá mais colaborações no futuro?

Sim. A maior parte das colaborações que eu fiz não foram premeditadas. Não sou só eu que tenho uma personalidade afável, mas também a maior parte das pessoas no mundo da música com as quais eu me cruzo e, muitas vezes, de estilos e de públicos completamente diferentes do meu, também têm essa afabilidade. Há relações de amizade que se criam e das relações de amizade as colaborações também brotam de maneira muito informal. Muitas dessas colaborações nasceram assim e, de repente, como no caso da Márcia, tornaram-se parcerias de uma vida. Nós continuamos a estar muitas vezes juntos e a fazer canções a pensar um no outro e a dar espaço para que o outro apareça nas mesmas. O caso do Manel Cruz também, a Manuela Azevedo mais recentemente. Nasce não só da proximidade estética, como da proximidade que se vai alicerçando com o conhecimento das pessoas.

O “mini-álbum” é dedicado ao casal Manuela Azevedo e do Hélder Gonçalves, cuja casa foi um dos locais de gravação dos quatros temas. (Inês Antunes)

Como é viver da música?

É ótimo. A música para mim era uma situação tão ideal que eu nem sequer sonhava com ela. Quando cresci e comecei a fazer canções, a aprender um instrumento, a música continuava a ser aquele mundo distante e eu nunca na vida tinha nos meus objetivos viver da música. Vivo quase num conto de fadas, por assim dizer. Não é a vida mais estável. Nunca sabemos se vamos ter ouvidos para as nossas canções. Mas ainda assim é tão surreal que eu não me consigo queixar. Amanhã podem não ter paciência para a minha música ou posso ter vontade de fazer música para a qual as pessoas não tenham paciência, mas pelo menos este período em que estou a conseguir subsistir, conseguir pagar as contas com uma coisa que me dá tanto prazer é de sonho.

Consideras que há qualidade na música contemporânea do nosso país?

 Eu acho que estamos a viver um período fértil no melhor dos sentidos. Nos últimos 15 anos não houve só uma abundância de projetos e de bandas, também abundou qualidade na maneira como as coisas começaram a serem feitas. Hoje em dia é possível gravar um disco com som de estúdio, com silêncio higienizado, que há 20 anos era preciso pagar milhares de euros para o conseguir. E hoje em dia, com um estúdio caseiro, miúdos conseguem fazer música em casa, conseguem estar um dia inteiro concentrados naquilo e fazer canções que podem passar nas rádios e ombrear com qualquer tipo de canção. A internet também ajudou a que as pessoas tivessem mais referências.    Já não estamos presos aos discos que comprávamos ou àquelas cassetes que passávamos uns para os outros. Há um manancial de referências e de soluções que estão muito mais disponíveis e acho que isso ajudou. E a música portuguesa está a passar uma fase muito boa devido à confluência de todos esses aspetos. O facto de eu fazer parte do panorama musical português podia não me dar distância, mas eu estou a falar de coisas que não têm nada a ver com o tipo de música que eu faço e consigo olhar para esse panorama e perceber que daqui a 20 anos vamos olhar para trás e vamos ver este período como uma explosão não só de quantidade mas também de qualidade. 

Sentes que tens o teu devido reconhecimento?

Eu comecei a fazer música de uma forma marginal. Não tenho pretensão de que, de repente, o que fazia de forma marginal chegue a um público mainstream, que a minha música passe em rádios cujos ouvintes não têm propriamente muito a ver com aquilo que eu faço. Eu acho que tenho a amplitude certa para as canções que faço. Nesse sentido, o reconhecimento é ótimo. Quando não é em termos de público, em termos de crítica é bastante bom. De repente fiquei conotado como uma espécie de “revolução da música escrita em português” e ser um dos porta-estandarte dessa revolução dá-me muito prazer. Por outro lado, também me responsabiliza e conota-me com coisas com as quais eu não me revejo. Mas eu sou muito grato. Eu sou um rapaz da província, isto para mim é um bocado irreal.

 O que podemos esperar futuramente de ti?

Agora tenho bastantes concertos, sobretudo nos próximos meses. Mas depois começo a sentir aquela coceira de ter de começar a fazer coisas novas. Como sou muito conservador, as coisas novas têm de passar por um disco, várias canções agregadas umas às outras com um conceito. Este ano eu gostava muito de, pelo menos, escrever mais um álbum, mesmo que não o consiga lançar logo. Está nos meus objetivos. E continuar também a escrever para amigos, gente muito talentosa com melhores características interpretativas do que eu, que me dão essa benesse de escrever para eles e de repente projetar-me para outras vozes. Também me tem dado muito prazer e continuo a fazê-lo.

 

Até aos próximos concertos do Sons da Vila fiquem com um dos quatro temas do EP “Marcha Atroz” de Samuel Úria que promete que o calor sentido neste concerto “VEM DE NOVO” com FrankieChavez e Paus.

Depois de todos os acordes dados e do caloroso e constante bater de palmas, percebeu-se que “a fasquia ficou alta com este primeiro concerto”, confirma a coordenadora Mafalda Teixeira.

“Brilhante” e “fantástico” são as palavras mais usadas por parte do público para definir este músico. Público este que se sentiu bem acolhido, constatando a existência de “um ambiente impecável” e cujo discurso felicita a iniciativa da Câmara de organizar este evento.

Certamente que todos os que experienciaram o primeiro dia do “Sons na Vila” ficaram com “água na boca” para verem os artistas que se seguem.

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