Saramago e o Diário de Notícias no “Verão Quente”

Os acontecimentos do dia 11 de Março de 1975 trazem uma nova administração ao jornal. Esse executivo é então composto por Marcelino Marques, Francisco Solano de Almeida e Correia da Fonseca. Luís de Barros foi então designado diretor, tendo Saramago como adjunto. De entre estes nomes, o mais vistoso é o de Saramago. Não pelos motivos mais incontestáveis, mas pelo papel que exerceu neste processo um pouco conturbado do DN. O escritor ficou conhecido como o “jornalista revolucionário” que veio alterar completamente a linha editorial daquele jornal. Os seus textos polémicos e incendiários marcaram todo o processo vivido no jornal no “Verão Quente” desse ano. 
Saramago idealizava um futuro: “O DN vai ser o instrumento, nas mãos do povo português, para a construção do socialismo”, afirmava na tomada de posse das funções que viria a exercer durante apenas sete meses. Estava assim traçado o futuro ideológico do jornal. Sob o título genérico “Apontamentos”, foram publicados 95 textos, entre abril e novembro de 1975, que eram verdadeiros editoriais. O estilo que o celebrizou enquanto escritor estava já a dar sinais de desabrochamento. Os juízos morais e as críticas demolidoras foram desde logo postos em prática. O Diário de Notícias depara-se com uma situação pela qual nunca tinha passado. Tudo tem início com um documento assinado por trinta jornalistas do diário. É neste contexto que surge o “Caso dos 24”. Trinta jornalistas (metade da redação) apresentam à direção do jornal um abaixo-assinado que defendia a revisão da linha editorial e exigia a sua publicação no próprio DN. No dia seguinte, o documento é publicado no “Expresso” e enviado para a BBC. Esta situação provocou grande desagrado ao então diretor-adjunto, o que o fez convocar o Conselho Geral de Trabalhadores. Nessa mesma noite foi decidida, em plenário, a suspensão de 24 jornalistas. A forma como as decisões se tomavam nos plenários no DN foi alvo de muitas críticas no que respeita à representatividade dos trabalhadores e à forma de votação de braço no ar, mas também à forte intervenção do escritor, que condenou vivamente o ato de avaliação, por parte dos jornalistas, do trabalho editorial da direção do jornal.

A investigação do autor
Pedro Marques Gomes partiu de estudos feitos sobre a Revolução que referiam este caso do DN como sendo emblemático e evidenciavam a sua utilidade para o estudo sobre o controlo dos órgãos de comunicação social em Portugal. Todavia, pretendeu fazer um aprofundamento da temática e empreendeu uma investigação de raiz que esclarece o processo pelo qual o jornal e os seus trabalhadores passaram entre abril e novembro daquele ano.
No processo de restabelecimento do seu próprio controlo, os meios de comunicação social em Portugal, depois de abolida a censura prévia e perante um novo contexto político, passaram por uma transição na qual a definição das suas orientações político-ideológicas foi por vezes problemática. Segundo o autor, “é impossível ignorar as pressões das diversas forças em presença e a instabilidade vivida nas próprias redações dos jornais, com a alteração das suas direções e administrações, os saneamentos de jornalistas, a luta pelo poder de decidir a orientação dos jornais, que se estendia aos tipógrafos, etc.”
Estes acontecimentos, considera Pedro Gomes, “contribuíram para uma maior reflexão sobre a liberdade de imprensa e o papel dos media no Portugal democrático, sendo os artigos sobre a comunicação social presentes na Constituição de 1976 um bom exemplo dos resultados dessa reflexão.” Para além destas contribuições, “o ‘Diário de Notícias’, tal como a comunicação social em geral, foram palco dessas lutas, tendo um papel muito importante nos agitados anos do processo revolucionário”, complementa o autor.
Com o “maior distanciamento possível”, nem sempre fácil de atingir, o investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa salienta que gostaria de que não existisse tanta polémica em volta desta situação dos saneamentos. Porém, a circunstância de se tratar de tempos recentes torna inevitável o confronto “com as opiniões muito vivas de quem acompanhou os acontecimentos na época”.
O autor de “Os saneamentos políticos no Diário de Notícias”, ao falar sobre a profissão e o papel que tem o jornalista nos dias de hoje, não consegue fazer comparações claras em relação ao período revolucionário de há quarenta anos. “Hoje os jornalistas confrontam-se com outro tipo de questões, numa profissão que é cada vez mais precária e em que o espaço para reflexão sobre o seu trabalho é reduzido. Daqui a alguns anos poder-se-á fazer uma análise mais desapaixonada sobre a atualidade do jornalismo e talvez se possa também fazer comparações com outros períodos, nomeadamente com os anos da revolução”, explica Pedro Marques Gomes.
Esta obra de investigação pretende clarificar o que foi o saneamento dos 24 trabalhadores do DN no “Verão Quente” de 75, e nomeadamente o papel que nele desempenhou José Saramago. O leitor é convidado a refletir sobre os processos de mudança tão complicados que se viveram no seio dos meios de comunicação social depois de estabelecida a democracia.

Texto: Jessica Sousa

Imagem: Alêtheia Editores

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