Segundo desporto mais praticado em Espanha invade Portugal

Campo de Padel © Carlos Fernandes

Comecemos pelo básico. O padel é um desporto de raqueta jogado a pares num campo retangular semelhante àquele que é usado no ténis, com dez metros de largura por vinte de comprimento e uma rede no meio. As semelhanças com o ténis ficam-se por aqui, porque até o mais distraído dos observadores notará, com certeza, a “jaula” que envolve o campo. Esta “jaula”, em vidro ou alvenaria, não é meramente decorativa, mas o verdadeiro game changer do padel.

Entre quatro paredes

A sabedoria popular diz-nos que vale tudo entre quatro paredes. Ora, no padel, é tão ou mais importante saber o que fazer com elas do que com quem nos acompanha. Bruno Aguiar é o diretor técnico do Nacional Padel, atual campeão nacional de clubes, e, enquanto professor, confessa que a maior dificuldade consiste em fazer ver que, quando bem utilizadas, podem ser um precioso aliado. “Numa fase inicial, a parede é uma desvantagem porque tem sempre um ressalto diferente. Mas, quando as pessoas percebem que por vezes é mais vantajoso deixar a bola ressaltar na parede, de forma a que perca alguma velocidade, e aprendem a dominar o ressalto, passa a ser uma vantagem”.

Ainda assim, são muitos os atletas a transitar do ténis para o padel. Para Bruno Aguiar, é tudo uma questão de exigência. “É quase uma transição natural para a reforma desportiva. Vêm de alta competição, passam para média competição e depois ficam no sofá a ver os jogos, até porque são poucas as pessoas que jogam ténis e que, quando experimentam o padel, não gostam”. Diogo Rocha é o atual líder do ranking nacional da modalidade e também ele passou por esta migração. Habituado ao ténis de alta competição desde muito jovem, assegura que “a mudança de chip do ténis para o padel não é fácil. Quem vem do ténis quer sempre jogar com muita velocidade e acabar logo os pontos, e não é fácil perceber que no padel isso não acontece. Há que ter mais paciência a construir o ponto, e por vezes o jogar muito rápido e forte é prejudicial”.

Outra das grandes diferenças entre o ténis e o padel está na parte monetária. Se o primeiro faz transparecer a imagem de modalidade rica, já o segundo pode ser visto como um… parente “pobre”. Bruno Aguiar dá o exemplo de Miguel Oliveira, jogador de padel português que se viu obrigado a emigrar para Espanha de forma a seguir o caminho da profissionalização. “O Miguel faz todas as fases da qualificação a que consegue ir, este ano já fez 8. Ainda há pouco tempo teve um torneio no campeonato nacional e, no mesmo dia, foi para Valência. Fez 900 km e perdeu na primeira ronda”.

Isto exige, claro, um grande esforço financeiro por parte dos atletas, daí a Federação Portuguesa de Padel (FPP) ter criado a Team FPP. Dessa equipa fazem parte os 8 melhores atletas nacionais: Diogo Rocha, Tiago Santos, Vasco Pascoal, Diogo Schaefer, Miguel Oliveira, Pedro Plantier, João Bastos e Diogo Taveira. Todos estes atletas recebem um subsídio de deslocação e de alojamento, sendo que, em contrapartida, estão sujeitos a rígidos horários de treino e devem demonstrar total disponibilidade para os encontros organizados pela federação. Além do cargo que ocupa no Nacional Padel, Bruno Aguiar é também responsável pela secção de formação da FPP e acredita que “têm de existir referências nacionais, quer a nível masculino, quer a nível feminino, para que as pessoas se sintam motivadas a continuar”.

A verdade é que, de facto, não só os atletas se sentem motivados a continuar, como são cada vez mais os interessados a experimentar a modalidade. Estima-se que, em Portugal, existam já mais de 100 campos de padel, e estes números tendem a aumentar. Quem o diz é o Presidente da FPP, Ricardo Oliveira. “Neste momento até temos falta de professores para ocupar todos os clubes que têm vindo a abrir. Vamos fazer mais cursos porque os clubes pedem-nos treinadores e, de momento, não temos”. Mas afinal, a que se deve tanta popularidade?

Campo de Padel © Carlos Fernandes
Campo de Padel © Carlos Fernandes

Crescer é a palavra de ordem

A proliferação de campos de padel tem vindo a ser notória por todo o país. Afinal, quem ainda não passou por uma destas “jaulas”? Para Bruno Aguiar, a explicação é simples: “É dos poucos desportos em que se vê a jogar homens, mulheres, novos, velhos… Ao contrário do squash, que há uns anos esteve na moda, o padel é muito menos exigente. No padel posso adaptar as minhas características àquilo que quero fazer. Se quero competir mais, jogo com pessoas mais experientes, se quero brincar um bocado, jogo com amigos que, se calhar, nem nunca experimentaram, e passo um bom tempo quase sem correr e todos nos divertimos”.

Além disso, a proximidade com Espanha, onde se estima a existência de mais de 4 milhões de praticantes (mais do que no basquete e no ténis, por exemplo), facilita o contacto com a modalidade. E quem diz que “de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos”, é porque nunca ouviu falar do padel. A proximidade dos nuestros hermanos, a maior potência mundial da modalidade, tem sido fator decisivo na sua crescente popularidade. Prova disso é o ranking da World Padel Tour (WPT), completamente dominado por atletas espanhóis, isto apesar de alguns atletas portugueses começarem a despontar, como é o caso de Ana Catarina Nogueira, já presente no top-20.

Apesar da denominação do WPT presumir um circuito internacional, apenas muito recentemente este atravessou as fronteiras espanholas, mais propriamente para a capital portuguesa, onde este ano se realizou a segunda edição do Estrella Damm Lisboa Open. E com números bastante positivos. Se em 2013 as bancadas registaram uma audiência média de cerca de 500 espectadores por jogo, a edição de 2014, apesar de ter tido transmissão televisiva, recebeu quase o triplo desse número.

Tal como acontece na maioria das etapas do WPT, o Open de Lisboa não conta ainda com quadro feminino. A adesão que a modalidade tem tido junto das mulheres não se tem transferido para a vertente competitiva, havendo uma grande discrepância entre o número de pares masculinos e femininos no que toca ao circuito profissional. Para Bruno Aguiar, “há uma palavra que muda a maneira da mulher estar na modalidade: competição. O homem pode jogar há uma semana mas, se aparece um torneio, inscreve-se. A mulher pode treinar durante vários anos para talvez, um dia, se inscrever. Isto também tem a ver com o desnível que existe nos torneios, onde muitas vezes há duplas que perdem por duplo 6-0, e as mulheres não gostam de perder dessa maneira”. O diretor técnico do Nacional Padel lamenta que assim seja, até porque a mulher teve um papel essencial no aumento da popularidade da modalidade. “Basta ir a um campo de padel e ver que entre 30% a 40% dos praticantes são mulheres, o que não se vê tanto noutras modalidades. Até mesmo para casais é benéfico. O rapaz não se importa de jogar com a rapariga, até dá para fazer programas de casais, que noutras modalidades não é normal”.

O presidente da FPP corrobora a tese, embora em jeito de brincadeira considere que o padel tenha um custo mais elevado para as mulheres, tradicionalmente mais cuidadosas com a aparência. “Toda a gente pode começar a jogar padel com uns sapatos de ténis que tenha lá em casa e com uma raquete de 20€, pelo que o investimento não é muito grande. Mas as mulheres costumam ser mais vaidosas, gastam mais dinheiro em padel porque têm os vestidos, as fitas, a raquete cor-de-rosa, etc. É mais caro jogar padel sendo mulher”, diz, entre risos.

Já no que toca ao futuro, o assunto é mais sério. Embora apenas tenha sido inaugurada em 2012, a FPP tem tido um longo trabalho na propagação do padel. Entre formação de treinadores e juízes-árbitros, campos de férias para crianças, criação da já referida Team FPP, entre muitos outros projetos, Ricardo Oliveira vê o futuro da modalidade em Portugal com um otimismo prudente. “No próximo ano ainda não podemos ser muito exigentes porque os nossos atletas começaram há muito pouco tempo, ao passo que os espanhóis têm décadas de experiência. Para o ano, se conseguirem chegar às prévias, já é um grande feito. Daqui a dois anos, a intenção é ter um par português no quadro principal. Ou seja, só daqui a dois anos é que espero que consigam chegar onde chegam os 32 melhores pares do mundo. Até lá, têm uma grande escalada para fazer. São degraus mínimos, mas não deixam de ser degraus”.

Texto e Fotos: Carlos Fernandes

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