Ser Mulher pelos olhos de três gerações

O mundo mudou a uma velocidade exponencial. Se nos anos 50 a maioria das mulheres era educada para ser a “fada do lar” submissa e perfeita, a possibilidade de aceder à educação e ao mercado de trabalho conquistou-lhe a independência financeira de que precisava para ser livre. Apesar das conquistas, ainda existem desigualdades que é importante combater. Três mulheres dão voz a estas transformações.

A condição social da mulher portuguesa tem vindo a alterar-se ao longo dos anos, assim como os papéis que desempenha. Filipa Subtil, socióloga e professora na Escola Superior de Comunicação Social, explica que a educação pode ser considerada a grande variável transformadora desta condição. Foi o processo de democratização do país que levou o ensino a mais pessoas e, segundo a socióloga, “se houve uma grande revolução social a seguir ao 25 de Abril, foi na condição social da mulher”.

Maria Otília nasceu muito antes da Revolução dos Cravos, que trouxe, entre tantas outras coisas, mudanças ao nível da escolaridade, da inserção no mercado de trabalho e dos direitos políticos para a mulher. Casou aos 22 anos e aos 26, quando engravidou do seu único filho, deixou, por vontade do marido, de revelar fotografias. “Deu-me um grande desgosto”, confessa. Pelo prazer pessoal que a sua profissão lhe proporcionava, Maria adiou por uns tempos a decisão de se despedir da empresa onde trabalhava desde os 13 anos. Caso não o fizesse, o desfecho teria sido o mesmo – o marido fá-lo-ia por ela, como muitas vezes disse que faria. Os sonhos desta mulher de 84 anos sempre passaram pelo casamento e pelo desejo de encontrar um “marido bom”. O trabalho era uma distração para Maria, que passou a viver uma outra realidade.

Não vivi praticamente a adolescência e o início da fase adulta sozinha, e isso também não me deu espaço para viver a minha vida.

O casamento aos 22 anos foi também um capítulo da vida de Sílvia Marques, que, atualmente, mora sozinha e é auxiliar de ação direta. “Não vivi praticamente a adolescência e o início da fase adulta sozinha, e isso também não me deu espaço para viver a minha vida”, reconhece. O casamento não foi para sempre, e a separação não foi bem aceite pelos seus pais.

O divórcio é algo que Maria Otília também não aprova: “Pelos filhos, às vezes, temos de nos sacrificar, porque mais tarde são eles que sofrem.” Sílvia reconhece este pensamento mais tradicional que defende que o casamento é para vida e que, pelos filhos, se devem manter até os casamentos menos felizes. Ainda assim, a mulher de 53 anos acredita que o percurso de vida pode ser feito sozinho e é uma defensora convicta de que, acima de tudo, se deve procurar a felicidade própria, o bem-estar e a paz interior. “Em relação à minha idade, há muito aquele pensamento de que as mulheres querem estar sozinhas para estarem à solta. Não é bem visto nós juntarmos duas ou três amigas e irmos sair”, explica.

 Os dias de Maria foram passados a tomar conta do filho e a preparar as refeições, sobrando ainda tempo para se entreter a fazer renda ou a tecer umas malhas e para trocar umas palavras com as vizinhas. Se Maria Otília faria tudo igual em prol do seu filho, Sílvia arrepende-se de não ter dado continuidade aos estudos, uma vez que o seu desejo de constituir família se sobrepôs a essa possibilidade.

A escolaridade obrigatória, de acordo com Filipa Subtil, tornou-se numa realidade bastante vantajosa para o sexo feminino, que usufruiu até de inúmeros apoios do Estado. Paralelamente, no final dos anos 70 e início dos anos 80, a entrada em massa das mulheres no ensino superior proporcionou-lhes o acesso a cargos intermédios e superiores. Este cenário permitiu uma “transformação muito grande do ponto de vista da sua autonomia financeira”. Segundo a socióloga, “as mulheres perceberam que, para terem autonomia, a premissa era estudar. E é a questão financeira que acaba por proporcionar a conquista da liberdade e autonomia feminina”.

Beatriz Fernandes é a mais jovem deste conjunto de três mulheres. Ao fim de dois anos a trabalhar no departamento de marketing de um casino em Setúbal, decidiu despedir-se e aventurar-se pelo mundo fora. Começou por fazer Erasmus + na Croácia e na Bulgária, onde participou em vários projetos de voluntariado e intercâmbio. O espírito livre carateriza-a e os seus planos para o futuro são incertos. Atualmente, trabalha e vive em Dublin, capital da Irlanda, onde partilha casa com amigos, também eles emigrantes.

O importante hoje em dia é todas as pessoas apostarem na sua individualidade.

Para Beatriz, a mulher pode ser aquilo que quiser, uma vez que “o importante hoje em dia é todas as pessoas apostarem na sua individualidade”. A jovem afirma que ninguém individualmente, mulher ou homem, tem um papel na sociedade, mas que todos devemos tê-lo em conjunto, de modo a contribuirmos para a evolução da comunidade. “Lembro-me de ser pequena e pensar que aos 23 já ia ter dois filhos e agora tenho essa idade e penso que talvez aos 40. Ainda tenho tanta coisa para realizar…” No entanto, Beatriz admite que, um dia, “gostava de constituir família”, embora considere que ainda tem muito para viver antes que isso aconteça. 

Mesmo que Beatriz reconheça que a ideia de que o papel da mulher é “gerar vida e cuidar dela” continua enraizada na sociedade, a jovem afirma que a sua liberdade é completamente diferente daquela que a sua mãe teve na sua idade. A diferença torna-se ainda maior se for comparada à da geração da sua avó. Neste mesmo sentido, Maria Otília reconhece que “a mulher de antigamente era mais submissa e que a de hoje já tem outra liberdade”. Quem mandava lá em casa era o marido. “Era um mandar bom. Não era agressivo e fazia as coisas como deve ser.” De uma forma divertida, Maria partilha que, já na cama, gostava de escutar as radionovelas, e o marido, farto de as ouvir, desligava o quadro da eletricidade e dizia-lhe que tinha faltado a luz.

“A superação da dependência em relação ao homem é uma coisa que faz muita confusão à geração de mulheres mais antigas”, afirma Beatriz. Sílvia acrescenta que entre os 28 e os 30 anos começa a existir uma certa pressão para a mulher casar e ter filhos. Beatriz não cede a essa pressão, mas não nega a sua existência para outras mulheres. A jovem explica que “ela existe, por exemplo, nos almoços de família, com perguntas sobre namorados, maridos, ou até mesmo sobre quando haverá um bebé”.

O processo de socialização e interação com gerações mais velhas pouco escolarizadas mostra que o machismo ainda está muito enraizado.

Filipa Subtil esclarece que “o processo de socialização e interação com gerações mais velhas pouco escolarizadas mostra que o machismo ainda está muito enraizado”. De acordo com o estudo “As mulheres em Portugal, hoje”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, são necessárias – tendo em conta o ritmo a que, na última geração, evoluiu a contribuição do homem para a execução das tarefas domésticas – entre cinco e seis gerações para as posições da mulher e do homem nos casais em que ambos trabalham fora de casa se igualarem. A socióloga reforça a ideia de que o número de horas que as mulheres dedicam às tarefas domésticas e ao cuidar dos filhos continua a ser substancialmente superior ao dos homens. Acrescenta ainda que vários estudos já demonstraram que, em contexto pandémico, são as mulheres as mais penalizadas quanto aos cuidados com os filhos.

Beatriz sente que a sociedade ainda desvaloriza bastante a mulher, tal como Sílvia, que admite a existência do estereótipo de que esta é o sexo mais fraco. “Todos os dias há algo que nos faz sentir inferiores”, assegura Beatriz, que aposta que, “se as mulheres estivessem no poder, o mundo não era o que é”.

O Dia Internacional da Mulher é celebrado todos os anos dia 8 de março. Apesar de reconhecer que esta data é meramente simbólica, Filipa Subtil considera que é importante mantê-la na agenda: “É uma questão pela qual vale a pena lutar até se tornar numa conquista absolutamente assumida em todas as latitudes e culturas. Tanto homens como mulheres podem defender o feminismo na aceção de que este é a luta por direitos e deveres iguais para homens e mulheres.” Garra, coragem, resiliência e poder são algumas das palavras que as três mulheres de gerações diferentes utilizam para caracterizar o que é ser do género feminino.

Ilustrações de Joana Melo.

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