Sistema Rollart: Uma fase de transição na Patinagem Artística

A patinagem artística encontra-se numa fase de transição. Em 2020, a modalidade vai dizer um adeus definitivo ao antigo sistema de pontuação, o sistema White, para dar as boas vindas ao sistema Rollart.

Atletas da Sociedade Recreativa da Várzea de Sintra no Campeonato Distrital de Solo Dance (Marta Rodriguez/ 8ª Colina)

Praticada no gelo ou sobre quatro rodas, a patinagem artística é uma modalidade desportiva que destaca a importância da postura, da precisão, do equilíbrio, das componentes técnicas e da vertente artística (sobretudo evidenciada pela expressão corporal, que se faz acompanhar por um tema musical). Estas cinco componentes atribuem a reputação de “desporto dotado de grande beleza” à patinagem artística, um desporto que, para além de envolver todo o esquema de dança, envolve também uma grande concentração por parte dos atletas. Se dançar de sapatos já não é tarefa fácil, então de patins a dificuldade aumenta.

Enquanto modalidade de competição, a patinagem artística apresenta diversas especialidades. A nível individual falamos de Patinagem Livre, de Solo Dance e de Figuras Obrigatórias. Quando os atletas formam duplas estamos perante a especialidade de Pares Artísticos (Patinagem Livre) e/ou Pares de Dança. Por fim, há ainda Show e Precisão, uma especialidade executada por grupos de atletas. Os grupos podem ser dos seguintes tipos: quartetos, grupos pequenos (entre 6 e 12 elementos) e grupos grandes (com 16 ou mais elementos).

Segundo Inês Amado, técnica nacional da especialidade de Dança, esta é uma modalidade que tem muitos praticantes em Portugal (entre 8000 e 9000). No entanto, não tem reconhecimento a nível nacional por ser considerada uma modalidade amadora. Da parte daFederação Portuguesa de Patinagem, das restantes federações e dos órgãos superiores de patinagem artística, há uma vontade de mudar o panorama em Portugal e no mundo. Para isso, estas instâncias estão a trabalhar, em conjunto com o Comité Olímpico, no sentido de preencher os requisitos mínimos para que a patinagem artística sobre rodas se torne uma modalidade olímpica. Este é um processo que passa pela observância de alguns critérios, como por exemplo o número de praticantes, o número de espetadores, a qualidade e o sistema de ajuizamento. Assim, por agora, a patinagem artística está a atravessar uma nova fase e está a sofrer bastantes alterações no campo técnico, principalmente no que diz respeito ao sistema de avaliação. Aos poucos, o sistema de ajuizamento White está a ser substituído pelo novo sistema Rollart.

Carolina Ventura e Teresa Silvestre no Campeonato Distrital de Solo Dance (Marta Rodriguez/ 8ª Colina)

O sistema White é um sistema de comparação entre atletas que dá primazia às componentes técnicas e que recorre abundantemente às penalizações. O sistema Rollart, por outro lado, é semelhante ao sistema de pontuação que está em vigor na patinagem no gelo. Este novo sistema valoriza todos os elementos técnicos e artísticos que os atletas executam, e por isso as penalizações são menores. Por exemplo, e de acordo com Inês Amado, “na disciplina de Patinagem Livre existiam cerca de 20 penalizações possíveis; agora com o novo sistema, o Rollart, existe um terço dessas penalizações”.

 

Este novo sistema (Rollart), oficialmente reconhecido pelo Comité Olímpico, foi criado por um órgão superior, o World Skate. Com sede em Itália, o World Skate é oorganismo regulador mundial de Skateboarding e dos desportos sobre patins, nomeadamente o Hóquei em Patins e o Hóquei em Linha, a Patinagem de Velocidade e a Patinagem Artística. Por ser um sistema complexo, cuja língua universal é o inglês, ainda surgem algumas dúvidas a nível de regulamentos e de avaliação; contudo, está a ter uma boa aceitação por parte dos atletas e dos técnicos.

Atletas do Clube Desportivo de Paço d’Arcos no Campeonato Distrital de Solo Dance (Marta Rodriguez/ 8ª Colina)

Inês Castelo, atleta do Clube Desportivo de Paço d’Arcos, conta que este sistema torna a avaliação e as classificações mais justas. No entanto, devido ao rigor e à exigência que lhe subjazem, Inês Castelo acredita que se trata de “um sistema de difícil adaptação para qualquer atleta. Ainda assim, depois de passar o período de adaptação, o Rollart deixará qualquer um satisfeito”.

 

Este é um sistema que exige uma boa preparação por parte dos treinadores e dos juízes. Os treinadores, por exemplo, têm de “fazer um trabalho de casa maior para ver quais os elementos pontuados, e para ver aquilo que vale a pena ou não inserir nos programas dos atletas.” Quem o diz é Cristina Correia, treinadora na Liga dos Melhoramentos e Recreios de Algés. No caso dos juízes, estes estão sujeitos a reciclagens (realizadas no início das épocas desportivas e que se traduzem na revisão de regulamentos e novas diretrizes para o ano corrente), a formações intensivas, com duração de 3 a 4 dias, e a exames. Por isso, é importante estar em contato com a modalidade, conhecendo o seu grau de dificuldade, para que se consiga ser um bom juiz. É da competência do Conselho Nacional de Arbitragem da Federação Portuguesa de Patinagem realizar as formações de juízes nacionais, ao passo que a formação dos juízes regionais fica a cargo das associações desportivas.

Atletas do Clube Desportivo de Paço d’Arcos e da Sociedade Recreativa da Várzea de Sintra no Campeonato Distrital de Solo Dance(Marta Rodriguez/8ª Colina)

Como 2019 é um ano de transição, as associações (a nível regional) ainda podem optar por ajuizar os torneios e os campeonatos distritais com base no antigo sistema White, mas a nível nacional (campeonatos nacionais) e internacional o sistema Rollart já está implementado a cem por cento. Agora, com o novo sistema “os atletas vão conseguir obter recordes pessoais quer a nível de saltos, quer a nível de componentes técnicas e artísticas. Vão ter a oportunidade de saber quais os elementos mais ou menos valorizados, e assim trabalhar para melhorar, uma vez que, como se trata de um sistema transparente, têm acesso aos regulamentos e protocolos”, explica Inês Amado, técnica nacional na especialidade de Dança.

Inês Amado ilustra a mudança em curso com um exemplo da especialidade de Patinagem Livre: “não havia qualquer diferença, em termos de pontuação, se um salto completo fosse executado com mais ou menos velocidade. Agora, tudo tem o seu valor, o que significa que um salto executado com mais velocidade tem um valor e um salto executado com menos velocidade tem outro valor”. Ou seja, já não fica ao critério de cada juiz atribuir uma determinada pontuação, porque existe uma tabela à qual não se pode fugir.

Os critérios são mais precisos e a avaliação mais objetiva, afirma Helena Veloso, treinadora do Clube Desportivo de Paço d’Arcos e da Sociedade Recreativa da Várzea de Sintra. Helena reforça ainda que, embora “estejamos num período de adaptação, alguns treinadores já estavam a trabalhar no sentido de se tentarem ajustar ao novo sistema”.

Carolina Ventura a receber indicações da treinadora Helena Veloso (Marta Rodriguez/8ª Colina)

Inês Amado conta também que Portugal é uma referência a nível mundial na especialidade de dança. Em termos federativos, a adaptação ao sistema Rollart foi natural, e por isso os praticantes sentem-se confortáveis.

 

Este sistema tem vindo a ser melhorado desde há cinco anos. Foi oficialmente implementado pela primeira vez, a nível internacional, em 2018, na prova German Cup, tendo sido usado pela segunda vez na prova Portugal Cup. Em termos nacionais, o sistema Rollart foi implementado em janeiro de 2019. O objetivo é uniformizar o sistema a nível europeu e a nível mundial, de modo que, em 2020, o sistema White seja definitivamente abolido. Os técnicos e os atletas mostram-se otimistas e tudo indica que o novo sistema Rollart vai melhorar o ajuizamento e a qualidade da patinagem artística. As expetativas são elevadas, mas só em 2020 é que saberemos se o Rollart é a escolha certa ou não.

 

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