Subbuteo

Vitória na ponta dos dedos

Aqui, os jogadores têm pouco mais de 10 cm de altura. E não são os jogadores em campo que fazem o espetáculo: são os atletas que, com a ponta dos dedos, os empurram e fazem deslizar sobre o campo. Esta é a história do Subbuteo, o hobby que surgiu em tempo de Guerra e que hoje se mantém sob a forma de um jogo – desporto? – praticado por quase um milhar de jogadores federados. Desde o primeiro pontapé (ou flick) até aos dias de hoje, houve uma coisa que se manteve: a paixão de quem joga.

É o jogo grande: a final da Liga Europa. Está 2-2 a dez minutos do fim. Filipe Maia entra pelo meio, tem dois defesas em cima dele. A jogada parece perdida. O melhor jogador português da atualidade consegue arranjar espaço. Abre na direita, ainda fora da área, e remata. Sporting 3-2 Barcellona.

Filipe pega nos jogadores de plástico e coloca-os novamente nas posições corretas. O adversário faz o mesmo e, ao apito do árbitro, os bonecos são novamente lançados. Tudo isto decorre num campo de 116 por 80 cm, o tamanho de uma mesa de sala de aula.

11 de cada lado. A mesa está posta (CARLOTA PORTUGAL/8ª COLINA)

Pôr a Mesa

Dois dias antes, cinco membros da equipa do CF Belenenses encontram-se na escola Casa Pia para tratar da organização do torneio. É um autêntico ateliê de trabalhos manuais: tesouras, cola, réguas e lápis. Cortam papéis com os nomes de 22 equipas e mais de 80 jogadores.

ESTES SÃO OS FAVORITOS, O FCD BARCELLONA: BARCELLONA COM DOIS L’S. SÃO DE ITÁLIA, NÃO SÃO OS DE ESPANHA”

- Ricardo José

Entre as 22 equipas presentes, 3 são portuguesas: CF Belenenses (anfitriões), Sporting CP e GRD 1º de Maio Tires. Os restantes vêm de todos os cantos da Europa: Espanha, Itália, Inglaterra, Malta, Grécia… enquanto falamos com os organizadores, chegam os atletas do Hattard Subbuteo Club, um clube maltês.

Quem os vê, enérgicos e bem dispostos, não diria que fizeram mais de 3000 km para chegar àquela sala de conferências em Belém, agora adaptada para receber um torneio de futebol de mesa.

Chegam, pousam as malas, tiram de lá de dentro caixas de madeira ou plástico e começam um processo quase mecânico: tiram os bonecos, passam-nos numa fita de lixa e lançam-nos sobre o tapete verde que é o campo onde se disputam os jogos de Futebol de Mesa.

E é normal que seja algo natural para eles. Joseph Debono, por exemplo, já o faz há mais de 6 décadas. Tem 78 anos e é o jogador de Subbuteo mais velho do mundo. A sua história tem quase tanto tempo como o jogo em si.

Joseph Debono, o jogador de Subbuteo mais velho do mundo (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

O hobby que saiu da Guerra

O Subbuteo pode ter começado como um jogo para crianças, mas já é octagenário. Surgiu em 1947, pela mão de Peter Adolph. A Segunda Guerra Mundial acabou por influenciar – e de que maneira – o surgimento do jogo.

No Reino Unido, havia uma falta de materiais, decorrente do fim da Guerra. Isto obrigou Peter a produzir jogadores de cartão, que tinham de ser cortados e colocados sobre a base de plástico. O campo, esse, ainda não existia: deveria ser desenhado a giz sobre um lençol do exército (tipicamente verde escuro), que, dadas as circunstâncias, quase todas as casas da altura tinham.

Mas afinal... o que significa Subbuteo?

Inicialmente, o nome do jogo era apenas hobby, mas foi depois mudado, por ser considerado demasiado genérico. Assim, Peter inspirou-se na ave de rapina chamada Falco Subbuteo, conhecida tipicamente por… hobby.
 

O nome sugere que isto se trata de apenas uma brincadeira. Mas, se o velho adágio do futebol “É muito mais que um jogo” se aplica à modalidade praticada com os pés, também a podemos usar no futebol jogado com a ponta dos dedos. Isto porque cedo a modalidade se alargou muito para lá do público alvo, que eram as crianças. E cedo saiu das casas dos meninos mais abastados e foi para cafés, pavilhões, escolas…

Só na década de 70 é que o Subbuteo começou a falar português. Com a ajuda de Eusébio, que patrocinou o primeiro conjunto vendido em Portugal.

O "Pantera Negra" na primeira caixa de Subbuteo comercializada em Portugal (1970)

Tal como aconteceu nos outros países, ao surgimento cedo se seguiu a federalização. Hoje, existe um campeonato português, dezenas de competições a nível nacional e internacional e centenas de clubes federados de Subbuteo – ou futebol de mesa. O nome que se deve dar à modalidade continua a ser tema de discussão. Para uns, deve ser futebol de mesa porque Subbuteo é a marca, não o jogo. Para outros, Subbuteo é preferível, pois o futebol de mesa pode ser confundido facilmente com matraquilhos. Por isso, alguns clubes têm nomes a terminar com “SC” – “Subbuteo Club” – e outros com “TFC” – “Table Football Club”.

Luzes, Câmara, Flick

Apenas a nossa equipa de reportagem se encontra presente no primeiro dia da Liga Europa. No segundo, chegaria um repórter de um diário desportivo, para fotografar a final. Mas, noutros tempos e noutros palcos, o Subbuteo já foi merecedor de grandes coberturas televisivas. O canal televisivo britânico Channel 4 esteve presente no Mundial de 1990. Decorreu no mesmo ano e no mesmo país que o próprio Mundial de Futebol, em Itália.

As câmaras do Channel 4 viram Vasco Guimarães, uma das primeiras grandes figuras do Subbuteo no nosso país, a conquistar o Mundial na categoria Júnior. Quem lhe deu o troféu foi Sir Bobby Moore, antigo capitão da Seleção Inglesa de Futebol e Campeão do Mundo em 1966.

Vasco Guimarães (esquerda) venceu o holandês Joris Van Brakel (3-2) para conquistar a taça

Hoje, Vasco já não joga. Nuno Silva, capitão do Sporting CP, diz que Vasco teve uns “desentendimentos” com o Bari Reggio Emilia, equipa italiana que representava, e afastou-se da modalidade. Não nos foi possível contactá-lo.

Tal como Vasco outros tantos se afastaram do Subbuteo. “Começaram a aparecer as Playstations…”, lamenta Nuno Henriques, do CF Belenenses. Hoje, muitos jogadores consideram que o futebol de mesa se encontra em declínio. É cada vez mais difícil trazer novos aficionados. José Santos joga no GRD Tires e é professor de Educação Tecnológica numa escola em Algés, onde aproveitou para formar o seu próprio clube de futebol de mesa. Podemos chamar-lhe um “Jorge Mendes do Subbuteo”.

José Santos (direita) cumprimenta o adversário do Wolverhampton. E o fair-play vem a calhar. É que a equipa inglesa terminou o torneio na última posição (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

É também uma das figuras mais respeitadas do Futebol de Mesa. Grande parte dos jovens que praticam a modalidade em Portugal entrou neste mundo pela porta que José abriu. Afonso Pereira, que joga atualmente no Sporting CP, e Carolina Rodrigues, jogadora do CF Belenenses que já ganhou um Campeonato do Mundo, são duas das principais descobertas do Professor.

Carolina Rodrigues, atleta do Belenenses (CARLOTA PORTUGAL/8ª COLINA)

Apesar dos esforços de José e de outros como ele, são poucos os jovens a quem o Hobby é transmitido. Olhando para a Liga Europa, por exemplo, é fácil perceber que mais de metade dos participantes é composta por homens na casa dos 40/50 anos. O Subbuteo está envelhecido, ainda que em países como Itália e Grécia continuem a surgir novos jogadores.

Regras De Mesa

Antes de ver a bola rolar e os jogadores deslizar nesta Liga Europa, convém saber as regras do torneio. O Subbuteo competitivo distingue-se – e muito – daquele que é praticado num contexto caseiro. Em torneios por equipa, como é o caso, existe um formato específico.

Quatro mesas, um jogador de cada equipa em casa mesa. No final, a equipa que estiver a ganhar em mais mesas vence a partida. Não importa se o jogador da equipa A está a ganhar 5-0 na mesa 1; se os jogadores da equipa B estão a vencer por 1-0 nas mesas 2, 3 e 4 é a equipa B que ganha o jogo. Os golos marcados só contam em caso de empate no resultado geral. Um empate no tempo regulamentar (30 minutos, duas partes de 15 minutos cada) leva a partida para um período de “golo de ouro”, onde o primeiro a marcar, seja em que mesa for, vence. Dura 10 minutos e, se não houver golos, haverá penáltis. (GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

Os jogadores que se defrontam em cada mesa são definidos por um sorteio que acontece antes da partida. Constitui um dos principais elementos táticos do jogo: a equipa que escolhe os jogadores depois do adversário tem, à partida, vantagem.

O primeiro dia... em resumo

Jogo ou Desporto?

Mesmo para os praticantes, a pergunta é de resposta difícil.

Para estarem onde estão, é preciso passar muito tempo naquele tapete verde, a aperfeiçoar a precisão, a técnica e a tática. Aprender a fazer um bom flick – o movimento de empurrar o boneco com o dedo – leva tempo. Saber que tipo de flick usar e como o usar é um processo que exige disciplina e paciência.

Claudio de La Torre, jogador do FCD Barcellona (referenciado como um dos melhores do mundo) diz que treina um total de seis horas semanais. Cada clube tem suas ideologias de jogo. Ricardo José (CF Belenenses) descreve os italianos como “mais ratos”: sabem gerir a partida para conseguir uma vitória por 1-0 ou 2-0. Nada de espetáculo, apenas pragmatismo.

Ricardo (CF Belenenses) em dificuldades contra os italianos do ASD Brescia. O jogo terminaria 2-0 (resultado geral; na mesa, foi 3-3)(DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Assim como os futebolistas têm chuteiras, também os jogadores em miniatura têm diferentes bases, cada uma com características distintas. Umas ajudam mais no controlo de bola, outras no remate e outras na defesa.

Tal como um relvado mal tratado influência negativamente a qualidade de um jogo de futebol, um tapete de má qualidade limita os jogadores de Subbuteo. Um atleta do GRD Tires explicou-nos que, em tapetes novos, como os que estavam no torneio, “o jogador não desliza tão bem”.

Entre Flicks e Imperiais

No início do dia final da competição, o ambiente mudou: há mais tensão, mais nervosismo. Ainda falta definir quem vai à final, mas os jogadores do Belenenses estão contentes com a sua prestação: oitavo lugar da competição.

(DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Quem não sente essa tensão são os austríacos do TSC Phoenix.

SÃO SEMPRE OS QUE BEBEM MAIS NESTES TORNEIOS”

-Nuno Henriques, CF Belenenses

Já quase todas as equipas concluíram os jogos: algumas aproveitam e vão logo embora (a viagem de volta ainda é longa para muitos); outros ficam pela Escola Casa Pia e socializam com jogadores de outras equipas. Afinal de contas, quase todos se conhecem. Este tipo de torneios ocorre todos os meses e os participantes são, na maioria das vezes, os mesmos.

O Jogo Grande

Enquanto decorria o jogo para apurar o 3º e 4º lugar, já se sabia quem iria jogar a final: Sporting CP e FCD Barcellona. É o futebol ofensivo dos portugueses contra o pragmatismo defensivo dos italianos.

Nuno Silva (capitão do Sporting CP) exibe o seu peluche do “Jubas” (mascote do Sporting) montado sobre uma base de Subbuteo aos amigos. Filipe Maia está fora da sala de jogo. Nuno explica porquê:

ELE GOSTA DE PROCURAR UM SÍTIO CALMO E DE SE DEITAR ANTES DOS JOGOS”

Nuno Henriques, CF Belenenses

Os jogadores do FCD Barcellona convivem com outros italianos ainda presentes. Estão visivelmente mais efusivos que os jogadores do Sporting CP. Alguns deles, explica-nos Nuno Afonso (Sporting CP) têm menos de 18 anos. “Enquanto vocês jogavam Playstation, eles treinavam”, diz num tom jocoso aos repórteres.

Chama-se os jogadores para o sorteio. O ambiente densifica. “É aqui que se ganham muitos jogos“, diz Nuno Silva.

As equipas reúnem. O treinador do Barcellona dá conselhos aos jogadores, agora aparentemente mais nervosos. Nuno Silva caminha para o meio das mesas. O silêncio é absoluto. Segundos antes do apito inicial, ouve-se alguém do público a dizer o gajo não pode estar aqui, reclamando com um jogador italiano que se encontrava demasiado perto das mesas de jogo.

3 minutos depois do flick de saída, a primeira explosão de alegria. Filipe Maia faz o 1-0 na sua mesa.

Um dos jogadores do FCD Barcellona que não foram selecionados encontra-se de fora, constantemente a andar de um lado para o outro. Stop that, reclama um atleta de outra equipa também na plateia. 

It’s my team. It’s my final“, responde o jogador do Barcellona enquanto bate no peito

Chegados ao intervalo, é o jogo de Filipe Maia contra Claudio de La Torre que vai fazendo a diferença. 1-0, ganha o Sporting CP.

Começa a segunda parte, e os jogadores do FCD Barcellona parecem estar desconcertados. Alberto de La Torre, que está empatado no jogo contra Afonso, dá o mote: faltam 14 minutos, “Una vita, ragazzi” (“uma vida, rapazes”). De fora, os italianos que estão a assistir à final dão palavras de alento aos compatriotas.

Noutra mesa, Scaccia faz o 1-1. Bate com estrondo na mesa após o golo, e todos os colegas soltam gritos agressivos. Esta é uma prática comum dos italianos, aliás. Uma espécie de tática psicológica.

Scaccia teve de aplicar uma pressão alta, mas compensou. Conseguiu o 1-1. (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

É UMA LIBERTAÇÃO

-Claudio la Torre

O jogo segue e a tensão aumenta.

A seis minutos do fim, está tudo empatado (1-1). A cinco minutos do fim, o FCD Barcellona faz o 2-1, quando Cubeta marca a Afonso Pereira, e, pela primeira vez na partida, está na frente do marcador. A taça de primeiro lugar está mesmo ali, ao pé das mesas de jogo, e parece agora mais perto que nunca para os ragazzi da Sicília.

O "caneco" da Liga Europa (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Filipe Maia ainda faz o 4-2 contra De La Torre, mas, como já estava a ganhar na sua mesa, em nada altera o resultado geral. É a prova de que nem o melhor jogador português pode carregar a equipa numa modalidade coletiva. O esforço conjunto dos leões, a três minutos do fim, parece que vai acabar inglório.

1 minuto para o fim e, em todas as mesas, os jogadores do FCD Barcellona fazem o que melhor sabem: defendem. São “ratos” a jogar, como diria Ricardo.

Guarda redes do FCD Barcellona (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Soa o apito final nos cronómetros e segue-se nova explosão de gritos italianos, esta mais forte, mais sentida e mais prolongada do que qualquer uma que se tenha ouvido ao longo do fim de semana.

Para quem já viu uma final de uma competição de futebol de 11, os festejos do título são familiares. Os jogadores juntam-se num círculo a saltar e gritar o nome do clube. Abraços, empurrões, libertações de alegria. Mas neste caso o piso sobre o qual pulam não é o relvado. É o soalho de madeira daquela sala de conferências que, durante um fim de semana, serviu de palco dos sonhos para estes seis homens que fizeram quase 3000 km de viagem. Tudo por este momento.

As veias dos pescoços já estavam salientes de tantos gritos, mas poucas ou nenhumas palavras conseguimos arrancar aos mais recentes campeões da Liga Europa. “Very happy, very happy” (“muito feliz, muito feliz”), dizia Alberto de La Torre.

Mas, se tivéssemos repetido a pergunta que já fizéramos tantas vezes este fim de semana, a resposta era certa. Um jogo ou um desporto? O emocionado “Ohhhhhhh, Barcellona!” que ecoava naquela escola em Belém fala, literalmente, por si.

 

Texto: Gonçalo Taborda

Fotografias: Carlota Portugal e Diogo Ventura

Vídeo: Diogo Ventura

Desenvolvimento web: Carlota Portugal

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