Tensão EUA – Irão

O ano começou agitado. Logo na primeira semana de 2020 temia-se a iminência de um confronto militar à escala mundial. No dia 3 de janeiro, o general iraniano Qassem Soleimani morreu em Bagdad, vítima de um ataque efetuado por um drone comandado pelos Estados Unidos.

Soleimani, comandante da força de elite dos Guardiães da Revolução iranianos, Al-Qods, desempenhou um papel fundamental no combate aos jihadistas. Era apelidado de máximo representante da influência iraniana no Médio Oriente, e a figura mais importante do país a seguir ao ayatollah Ali Khamenei, nomeadamente pelo trabalho que desenvolveu a nível do reforço do peso diplomático do Irão.

Donald Trump voltou a mostrar-se imprevisível: justificou a ação afirmando que quis “evitar uma guerra” e não começar um conflito. Contudo, avisou que os EUA estavam a postos para responder a qualquer ameaça de Teerão, afirmando que teriam sido, inclusive, estabelecidos como potenciais alvos 52 locais de grande importância para o país.

Um desejo de vingança começou a espalhar-se pelas ruas do Irão. O país atacou duas bases aéreas norte-americanas no Iraque, deixando o mundo de olhos postos na região. Apesar de a morte de Qassem Soleimani, visto como um “herói nacional”, ter feito chorar o povo do Irão, a verdade é que também uniu os iranianos e o seu regime.

Os desentendimentos entre Teerão e Washington são antigos e os eventos recentes mostram que nenhum dos lados está disposto a esquecer as marcas do passado.

Destacam-se, assim, alguns acontecimentos importantes para compreender esta tensão Irão-EUA:

A hostilidade entre os dois países manifesta-se ao mais alto nível após a Revolução Islâmica de 1979. No ano seguinte, Jimmy Carter, presidente norte-americano, corta as relações diplomáticas entre as nações, situação que se mantém até hoje. Em 1984, os Estados Unidos incluem o Irão na lista dos Estados patrocinadores de terrorismo, a meio da guerra Irão-Iraque.

Durante os anos 90, são aplicadas várias sanções com o objetivo de desincentivar países e empresas a estabelecerem relações comerciais com o Irão. Washington viu o país do médio oriente a reforçar a sua influência regional e intensificar fortemente os esforços para extração de urânio, elemento essencial para as armas nucleares, enquanto integravam o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

Em 2002, o Presidente norte-americano, George W. Bush, inclui o Irão no “eixo do mal”, ao lado do Iraque e da Coreia do Norte. Percebia-se que os Estados Unidos não hesitariam em intervir no país caso desconfiassem da existência de armas de destruição em massa, hipótese que começava a surgir.

Após a denúncia da existência de duas instalações nucleares em território iraniano que não tinham sido declaradas pelo país, os Estados Unidos acusam o Irão de executar um programa nuclear. Ainda que Teerão garantisse que os recursos nucleares serviriam apenas fins civis, a pressão norte-americana foi constante.

Em 2009, Barack Obama, o novo Presidente norte-americano, mostra que o país está decidido a fazer acontecer a paz. Mas esta esperança de um acordo não tem resultados perante a posição cada vez mais extremada do Irão. Contudo, em 2012, Obama consegue criar as condições para negociar com Teerão. Também a eleição de um novo presidente iraniano, que pretende acabar com as dificuldades económicas criadas por décadas de sanções e obstáculos internacionais, facilita o acordo.

Considerado impossível apenas alguns anos antes, é assinado o Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), o acordo que limitou a produção nuclear do Irão, com um controlo assegurado pela Agência Internacional de Energia Atómica (AEIA). Implementado em janeiro de 2016, mantém-se em pleno cumprimento por todas as partes até 2018.

 

Donald Trump, o Presidente dos Estados Unidos da América. EPA/MICHAEL REYNOLDS / POOL

Donald Trump é eleito em 2016 e chega à presidência do país prometendo anular aquele que dizia publicamente ser “o pior acordo de sempre”. Em maio de 2018, os Estados Unidos retiram-se unilateralmente do acordo e anunciam a reposição de sanções.

Na base da decisão estão não só as críticas à ação de Obama, mas também a crescente influência que Trump assegurava que o Irão atingia no Médio Oriente e o facto de o acordo tratar apenas o dossier nuclear e esquecer, por exemplo, a questão dos mísseis balísticos.

Inicia-se, assim, um novo período de tensões, de resposta e contrarresposta entre Teerão e Washington. A partir deste momento, a economia iraniana começa a sofrer as consequências da decisão dos Estados Unidos, sobretudo porque as sanções passam a compreender todos os países e empresas que mantivessem negócios com o Irão. Pedia-se assim que as nações escolhessem entre Teerão e Washington.

 

O Presidente do Irão, Hassan Rouhani, em discurso ao país. EPA/HANDOUT

Em maio de 2019, o Presidente do Irão anuncia que o país irá começar a violar alguns pontos do acordo, caso a situação não mude. Os meses seguintes ficam marcados por uma grande contestação interna, em resposta às crescentes dificuldades económicas. A resposta do regime é brutal, registando-se várias centenas de mortos nas manifestações.

Os protestos contra a liderança iraniana convertem-se numa contestação aos Estados Unidos e no último dia de 2019, milhares de manifestantes realizaram um cerco à embaixada americana em Bagdad, que obrigou à intervenção das forças de segurança.

Considera-se ter sido esta ação “provocatória” que levou o Governo de Trump a decidir derrubar o general Qassem Soleimani.

 

"Enquanto esta situação não mudar, temos de estar muito atentos"

Daniel da Silva, de 22 anos, licenciado em Relações Internacionais pela Coventry University e aluno de mestrado na University of Manchester, atribui a culpa desta tensão, em grande parte, aos Estados Unidos. Para este estudante, os EUA ambicionam “ter algo a dizer sobre cada assunto da atualidade, de forma a conseguir controlar e policiar o Mundo. Para isto, tentam posicionar-se de forma estratégica em todas as regiões, nomeadamente no Médio Oriente”.

Para reforçar a sua opinião, Daniel considera que “os EUA têm utilizado falsas narrativas e falsos discursos para legitimar as desestabilizações que provocam”. Como exemplo, recorda a inclusão do Irão no “eixo do mal” por George Bush, em 2002, considerando que através disto os Estados Unidos “venderam a ideia de que, ao invadirem o país, só estariam a fazer algo de bom para o Mundo, classificando o Irão como um inimigo da paz. Mas a verdade é que, se as regiões conflituosas começarem a estabilizar-se, os Estados Unidos perdem a supremacia e o controlo sobre as situações, e esta ideia causa-lhes pânico”.

“Nos dias de hoje, percebe-se que qualquer tipo de intervenção americana no Médio Oriente só causa mais problemas. Se os Estados Unidos continuarem a fazer o que quiserem nestes países, cada vez vai haver mais descontentamento, mais conflitos e assim, mais grupos extremistas”, considera Daniel Silva. E acrescenta: “Enquanto os Estados Unidos supervisionarem o mundo, não vamos ver as relações entre o Médio Oriente e o mundo liberal melhorar. Enquanto esta situação não mudar, temos que estar muito atentos”.

Scroll to Top
0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap