Testemunhos de Itália. “Por favor aprendam com os nossos erros. O vírus não vos poupará.”

Depois de dezenas de casos suspeitos e outros tantos em análise, foi no Porto, a 2 de março, que surgiram os primeiros resultados positivos de COVID-19 em território nacional. A 26 de março, o país tem, de acordo com os números oficiais, 3.544 infetados e 60 mortes. Aquela que foi inicialmente uma subida gradual tem vindo a tornar-se mais preocupante.

Nos últimos dias do ano passado, em Wuhan, na China, propagou-se, por dezenas de pessoas, uma pneumonia de origem desconhecida. O início de 2020 ficou marcado pelo encerramento de um mercado de peixe e carne nessa localidade, de onde, de acordo com as suspeitas, viria a contaminação. Entre 10 e 11 de janeiro, as autoridades chinesas identificaram a causa destes sintomas: um novo tipo de coronavírus, cuja origem partira de um animal.

A 11 de março, dia em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou o estado mundial de pandemia, vários portugueses ignoraram as orientações das autoridades de saúde e foram até à praia. A linha de Cascais, Carcavelos e Santo Amaro de Oeiras ficaram apinhadas numa altura em que o Governo apelou ao isolamento social voluntário. O novo corona vírus permanecia uma realidade distante, que ainda não intimidava os portugueses o bastante para se submeterem às indicações das autoridades.

Foi exatamente esta despreocupação que condenou Itália, que é hoje o terceiro país com maior número de infetados no mundo (80.539), ficando apenas atrás da China (81.285) e dos Estados Unidos da América (82.404). No que toca ao número de mortes, Itália (8.165) já dobra a China (3.287). O vírus chegou a Itália a 31 de janeiro, através de dois turistas chineses. Após aterrarem no aeroporto Malpensa, em Milão, a 23 de janeiro, viajaram para Roma num autocarro turístico.

(Todos estes dados foram consultados e confirmados às 17h29 de dia 26 de março de 2020).

O Governo italiano decretou o encerramento de todas as atividades produtivas não estritamente necessárias para garantir bens e serviços essenciais. Em direto pelo Facebook, o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, revelou que é uma “decisão difícil”, mas “necessária”, para “enfrentar a fase mais aguda” da pandemia. (FILIPPO ATTILI/EPA)

 

O número de casos confirmados foi aumentando e, no final de fevereiro, o país já detinha o título de local mais atingido. A imposição da quarentena para o país inteiro chegou a 11 de março. Dias depois, com o agravar da situação, o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, decretou que todas as atividades produtivas – excetuando lojas de bens alimentares e farmácias – deveriam permanecer encerradas.

É na região da Lombardia que se encontra o principal foco do COVID-19 em Itália. A cinco dias do final do mês, os casos confirmados ultrapassam já os 32.300. De seguida, mas bastante atrás, está a região Emilia Romagna, com mais de 10.000. Em terceiro lugar está Veneto, com cerca de 6.400 casos. O 8ª Colina entrou em contacto com três estudantes italianos residentes nas zonas em causa.

Filippo Stella, 23, Milão

Fotografia cedida por Filippo Stella.

 

Filippo vive sozinho numa das áreas abrangidas pela “Zona Vermelha”, o conjunto de regiões mais afetadas pelo surto. Estuda Comunicação de Massa e Política na Universidade de Bolonha – curso que espera terminar no ano que vem -, mas neste momento encontra-se em Milão, capital da região da Lombardia. Como muitos outros, está preso em casa devido à quarentena. Confessa-se assustado com o cenário que o envolve.

Antes de o panorama se agravar, conseguia sair para correr aproximadamente 30 minutos por dia, rotina que considerava necessária para a sua saúde mental. Agora, já nem isso pode fazer. Tirando este exercício, saía apenas para comprar comida, realizando ambas as ações sem nunca desrespeitar a distância mínima de um metro entre pessoas. Para se manter ocupado, estuda e frequenta aulas online. Além disto, vê filmes e séries para se distrair. Com os amigos mantém o contacto através das novas tecnologias. “É aborrecido, mas necessário, se queremos voltar às nossas vidas normais.” Apesar de residir numa zona de risco, não conhece ninguém que esteja infetado.

Chegámos a este ponto, porque subestimaram o problema. Não estavam prontos para o encarar.” Aos portugueses, Filippo pede que sigam as ordens do Governo.


Nicoló Immesi, 22, Bolonha

Reside em Bolonha, capital da região de Emília-Romagna, desde 2016. É nesta cidade que partilha casa com dois colegas da universidade, que, de momento, regressaram às suas cidades natais. Assim, Nicoló enfrenta o período de isolamento sozinho. No entanto, afirma que não se sente só, pois sabe que o resto do país está em pé de igualdade consigo.

Tal como Filippo, Nicoló sai de casa apenas para comprar mantimentos. “O centro de Bolonha está vazio. Não há ninguém”, observa. Tenta praticar desporto dentro das quatro paredes, face às limitações impostas. Quando faz pausas no estudo para o curso de Direito que está a tirar, aproveita para manter o contacto com os amigos através de videochamada.

As forças de segurança italianas têm instruções para agir no caso de violação do isolamento: serão impostas sanções, aplicando o artigo 650.º do Código Penal, que prevê três meses de prisão e uma multa de 206 euros por desacato. A sanção aumenta no caso de se tratar de uma pessoa contaminada que deixa de cumprir a quarentena, aplicando-se o artigo 452.º do Código Penal, que estipula penas de três anos até prisão perpétua. (EPA/MOURAD BALTI TOUATI )

Um amigo de Nicoló, com 20 anos, testou positivo para o COVID-19, tendo contraído o vírus em Madrid. Encontra-se estável, exibindo sintomas como tosse e febre. Nicoló crê que os jovens cooperam melhor com as diretrizes. Para si, o cerne do problema está nas gerações mais velhas, que menosprezaram o perigo da ocasião, contribuindo para o crescimento exponencial dos casos confirmados: “Vejo idosos relaxados na rua. Acho que não compreendem a situação e a urgência de ficar em casa. Muitas vezes a polícia tem de intervir e mandá-los para casa.”

 

Federico Gatti Badoer, 21, Veneza

Fotografia cedida por Federico Gatti Badoer.

 

Federico vive e estuda em Veneza, capital de Veneto, a terceira pior região no que toca ao número de casos confirmados pelo novo corona vírus. “Somos forçados a ficar em casa. As pessoas saudáveis só podem sair para ir trabalhar ou por necessidades básicas. Se andarem a circular pela cidade sem motivo, podem pagar multas superiores a 200€ ou apanhar três anos de cadeia. Quem for apanhado na rua com sintomas pode ser acusado de homicídio, o que equivale, na pior das hipóteses, a 21 anos de cadeia.” Quando ainda podia ir à rua para apanhar ar, Federico chegou a ser parado por polícias, que lhe pediram para regressar a casa.

 

Este é um exemplar do certificado de boa saúde que os cidadãos italianos devem carregar. Trata-se de uma medida imposta para as forças policiais se certificarem de que apenas circula quem não tem outra hipótese e quem não constitui um perigo para a saúde pública. Não estar acompanhado do documento pode levar a sanções.

"Cometemos o erro de pensar que era só um problema chinês. Depois, pensámos que era um problema da Lombardia. Depois, um problema do norte de Itália. E agora? Agora estamos feitos. Nós precisamos da Europa. Talvez alertar Portugal nos ajude. Por favor aprendam com os nossos erros, porque o vírus não vos poupará.”

Federico Gatti Badoer.

O jovem de 21 anos vai formar-se este ano no Mestrado em Gestão e Administração de Negócios, na Universidade C’a Foscari de Veneza. De acordo com o mesmo, tanto as sessões de orientação da sua tese de mestrado, que acontecem via Skype ou via Google Meet, como as aulas online, estão a funcionar. Para se manter entretido durante a quarentena, redige a tese, cozinha, toca guitarra, joga videojogos, vê filmes e lê livros. “Maioritariamente tenho estudado, porque é suposto formar-me este ano, mas está tudo a ser adiado e já estou aborrecido. Tinha vários planos, como tentar entrar para a KU Leuven, universidade belga, mas tive de cancelar devido ao ponto da situação.”

Federico deixa o seu apelo: “No final de janeiro tínhamos dois casos isolados de indivíduos chineses, mas tudo ficou resolvido numa semana. Depois, aproximadamente na terceira semana de fevereiro, tivemos dois surtos: um na Lombardia e outro em Veneto. Estes sítios foram colocados em quarentena, mas isso não foi suficiente para proteger todo o país. Começou a disseminar-se e chegou à minha cidade, Veneza, em uma semana. Desde então, parei gradualmente de jogar basquetebol, de ir às aulas e de ver os meus amigos. Cometemos o erro de pensar que era só um problema chinês. Depois, pensámos que era um problema da Lombardia. Depois, um problema do norte de Itália. E agora? Agora estamos feitos. Nós precisamos da Europa. Talvez alertar Portugal nos ajude. Por favor aprendam com os nossos erros, porque o vírus não vos poupará.”

O vírus, particularmente perigoso para idosos e para pessoas com condições de saúde frágeis, veio para ficar. Em Itália, milhares precisam de ventiladores, mas não há os suficientes. Muitos requerem tratamento intensivo, mas não há espaço nos hospitais. O caos está instalado e as restrições impostas podem vir a ser prolongadas. Contudo, importa referir o número de italianos que, no combate contra a doença, já saíram vitoriosos: em Itália, são já 9.362 as pessoas declaradas curadas.

Artigo escrito por: Mariana Coelho

Fotografia de capa: (ETTORE FERRARI / EPA)

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