“Todos pelo Alentejo, o Alentejo pela Pátria”

“Suponha que você e eu queríamos ir ao baile. Chegávamos à porta e se não trouxéssemos gravata não entrávamos. Então havia uma solução: um trazia gravata e entrava. Chegava à janela e atirava a gravata ao outro, para entrarem os dois!”. António Carrasco, porteiro há 12 anos na Casa do Alentejo, tem no sotaque o gosto pelas histórias e a malandrice bem apurada. Sente-se na voz do Mourense o orgulho pela Casa e o respeito pelos que a fizeram em 90 anos celebrados no último 10 de Junho.

O lema traduz o associativismo que fundou a instituição, mas há quem a diga “elitista”, fruto da presença de ilustres alentejanos nas direcções desta casa desde a sua fundação, ainda como Grémio Alentejano, em 1923. Depois de uma década nas instalações do actual Solar do Vinho do Porto, o fundador da Casa do Alentejo, Jacinto Fernandes Palma, alugou o espaço que ainda hoje acolhe alentejanos – e não só.

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 De curral a palácio

Ocupando o Palácio de Alverca, prodígio da arquitectura portuguesa do século XVII, o 58 da rua das Portas de Santo Antão passa quase incógnito aos transeuntes. A entrada, paradoxalmente modesta e estreita, oculta a obra-prima do arquitecto António Rodrigues da Silva Júnior, que, ombreado por artistas como os pintores José Ferreira Bazalisa e Bernardo Ceia ou o mestre de azulejos Jorge Colaço, remodelou, a partir de 1917, esta construção de assinalável beleza e conservação. O espaço que durante o século XV serviu de curral a porcos e vacas viria a ser uma fábrica de curtumes e um armazém de mobiliário e arte. Outrora pertença da família Paes do Amaral, Viscondes de Alverca, o edifício foi erigido na muralha Fernandina, aproveitando as fachadas Norte e Sul, cujos vestígios são hoje o pátio aberto do Bar “Taberna”, ponto de encontro de cantadores e estudantes, turistas e conterrâneos.

A obra de Silva Júnior acolheria em 1919 um dos primeiros casinos de Lisboa, o refinado Majestic. À entrada a escadaria conduz-nos ao Pátio Árabe, evidência de inspiração mourisca ornada de arcos ogivais e colunas sublimemente detalhadas, com uma pequena fonte ao centro e mobiliário rústico que percorre toda a Casa.

A par com várias placas nomeando alentejanos distintos, como Salgueiro Maia ou Florbela Espanca, opõem-se o pequeno secretariado e o faustoso bengaleiro, onde nos espera António Carrasco para uma visita sem roteiros turísticos. No primeiro piso do palácio funciona ainda a loja de produtos regionais e o Museu da Casa, antro de preciosidades que documentam não apenas um povo, mas uma sociedade portuguesa do século XX.

Uma Casa com Causas

Para lá do convívio e do cante, promove-se desde cedo, como narra o boletim de 1948, a solidariedade junto de conterrâneos. A Casa “sustenta uma escola primária gratuita para filhas de alentejanos pobres”, “auxilia estudantes no seguimento dos seus estudos” e “repatria muitos que pretendem regressar à terra natal”. Recebe ainda naquele tempo os doentes na sua clínica e presta os serviços de barbearia, tabacaria e engraxadoria aos sócios mais carenciados. “Todos os anos, pelo Natal, os funcionários reuniam alguns haveres e as pessoas mais pobres vinham cá buscar o seu cabaz.”, relembra o guia.

Cozinha e cultura, tradições requintadas

As quatro salas de jantar que recebem os 200 mil visitantes anuais variam na designação, sendo a principal a Sala dos Espelhos, contígua à Sala de Jogos através de um palco único no país. Onde funcionava o casino, ecoam hoje os grupos de cante e coros populares que dão tom às silhuetas femininas, e aos domingos os espelhos reflectem a orquestra no seu “palco furado”, convidando a capital às Matinés Dançantes, ex-libris da Casa.

A Sala Azul, decorada em azulejo deste matiz, e a Sala da Lareira, circundada por ilustrações de feiras e lavouras portuguesas, são precedidas pela Sala de Olivença, onde se destaca a homenagem ao Nobel José Saramago. Nestas divisões luxuosas mas tradicionais operam mais de 30 empregados, com uma cozinha de sete cozinheiros, chefiados por Elisabete Santos. A cozinha é o marco da versatilidade da Casa: a ementa, seleccionada semanalmente, propõe a gastronomia regional sem esquecer os pedidos dos clientes ou as novas tendências vegetarianas. Migas, ensopados, açordas, bacalhaus, peixes frescos e a indispensável carne de porco fazem as delícias dos comensais, salvo raras surpresas: “os estrangeiros pedem açorda, mas não percebem muito bem o que é aquilo”, brinca a Chef. Os vinhos são do melhor que as castas alentejanas produzem, e as sobremesas fazem esquecer as dietas, com sericaia, torta de requeijão, toucinho-do-céu, encharcada ou bolo rançoso confeccionados na Casa. Os segredos da casa, confessa Elisabete, são o azeite, o alho, o pão de dois dias, os coentros, os poejos, a hortelã ribeira e outros tesouros que só o Alentejo oferece.

Para quem adivinha preços palacianos, desengane-se: “temos menus de grupos desde os 10 euros, e há sempre pratos do dia”, avisa a chefe. Se está de passagem, aproveite para pôr a leitura em dia na Biblioteca e desfrute da aura alentejana da Taberna, onde a arte do petisco seduz o estômago com saladas de polvo, febras, enchidos, queijos e pães alentejanos, a regar com uns balios – copos pequenos – de tinto. Aqui as refeições ficam entre os 3 e os 6 euros, e o espaço promove o convívio entre os homens que, finda a lavoura de cada dia, aqui vêm entoar o cante. “Alentejanos ou alentejanistas”, todos recebem a amabilidade e graça deste povo para lá daquela porta discreta que já viu passar o mundo.

Por Roberto Leandro

Fotografias de Samuel Meneses

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