Trabalhar na Torre de Belém é “uma alegria e um privilégio”

Torre de Belém © Inês Monteiro

No ano em que se comemoram 500 anos da construção da Torre de Belém, há, no mesmo lugar, outra data a ser assinalada: completam-se 30 anos desde que Miguel Santos, de 53 anos, entrou ao serviço deste monumento. “Sinto-me parte da História”, garante, não escondendo que “trabalhar na Torre de Belém é uma alegria e um privilégio”. Mas quem é Miguel Santos? O melhor é conhecê-lo na primeira pessoa.

“Já fui marceneiro, mas há 30 anos que já não faço isso. Vim parar aqui numa altura em que estava desempregado depois de sair da tropa. Não havia fundo de desemprego. A diretora do Mosteiro dos Jerónimos andava à procura de vigilantes, e um dia foi a um café onde eu costumava ir. O dono falou-lhe de mim e depois foi só tratar dos papéis. Entrei como tarefeiro nos dois locais – Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém”.

Atualmente, ocupa funções de coordenação, após ter passado largos anos como vigilante da Torre de Belém. Estivemos à conversa com ele, para conhecer o outro lado de um edifício que é o cartão de visita do nosso país. Melhor que ninguém, Miguel conhece os cantos à casa e gosta, como nos começa por contar, “de receber as pessoas, de responder às dúvidas dos turistas e de conversar com eles”. À nossa conversa junta-se Júlia Gonçalves, de 54 anos, atual vigilante da Torre. Pelos testemunhos dos dois, percebemos até o que distingue os antigos turistas dos de hoje.

Conhecer para poder explicar

Uma das principais funções do vigilante, para além da natural atenção aos movimentos dos visitantes, é a de explicar, ensinar e mostrar pormenores e informações, e tirar dúvidas a quem chega apenas com uma fotografia de um postal. Miguel diz que os vigilantes recebem formação, mas lamenta que seja “sobretudo informação”, sem conhecimento mais especializado. “Devíamos ter formação mais aprofundada, para conhecermos melhor aquilo de que falamos, devia fazer-se uma visita pelos lugares da Torre com os funcionários para todos conhecerem o local onde trabalham”, reconhece. Júlia acrescenta rapidamente que “nenhum turista sai dali sem resposta!”, e confessa: “quando ficamos curiosos com coisas que nos perguntam, vamos à internet pesquisar para lhe explicar”.

Também as placas informativas, presentes nas várias salas do edifício, foram outra batalha. “Lutámos muito para ter aqui a história escrita, porque não havia nada”, garante Miguel. Júlia confirma que só “lá para 2008 ou 2009 é que acabaram por pôr aqui estas placas”.

No piso inferior da Torre fica a prisão, que “inicialmente era um paiol onde guardavam os barris da pólvora”. De teto baixo, e passagens ainda mais apertadas, é o pretexto ideal para Miguel nos contar um dos grandes problemas que tem de enfrentar: os grupos grandes de visitantes. “Costumam vir muitos grupos grandes, principalmente no verão. Chegamos a ter de fechar, quando excedemos o limite máximo de pessoas aqui dentro”.

O grande claustro da Torre, repleto de turistas, recebe muita luz do sol, o que leva Miguel a garantir que os soldados ali passariam muito tempo. “Isto servia para a saída do fumo dos disparos dos canhões, mas também devia ser para os militares apanharem sol”, aposta. Deixa aqui um dos primeiros lamentos: “a Torre de Belém está nua, devia estar muito mais composta”. Júlia afirma que, “mesmo assim é uma loucura para os turistas”.

[slideshow_deploy id=’28184′]

Turismo de ontem e turismo de hoje

Atualmente a ocupar uma posição que Miguel assumiu durante vários anos, Júlia Gonçalves “está a apanhar a nova era do turismo” – nas palavras do colega. A vigilante reconhece que os turistas de hoje “são menos tolerantes, querem subir logo, refilam se lhes falamos do limite de pessoas, etc.”. O verão é a época mais crítica. Com a Torre frequentemente cheia e muito sol a manter os visitantes no topo do edifício durante muito tempo, Júlia chega a ter de “ir lá dizer que há mais pessoas para visitar, porque há filas intermináveis e quem está lá em cima não quer saber de quem está cá em baixo… Ficam a apanhar sol e alguns até trazem banquinhos para se sentarem”. Para Miguel Santos, é indiscutível que “há pessoas que pagam só para dizerem que estiveram aqui na Torre”, apesar de os dois vigilantes concordarem num ponto: “a maioria dos turistas chega com vontade de conhecer bem o local”.

Enquanto conversamos numa das vigias da sala da cisterna, uma criança pede a Miguel que se desvie da janela onde está encostado, perguntando timidamente: “can I take a picture?” [posso tirar uma fotografia?]. Miguel comenta que antigamente “não havia tanto turismo, as pessoas não andavam tão stressadas. Não havia tanto tempo de espera”. Acrescenta que “atualmente as pessoas querem entrar em todos os monumentos em duas horas”, não tirando o mérito aos bilhetes combinados, que apoia – “foram uma coisa muito boa que fizeram. É preciso aproveitar cada monumento e não passar a correr pelos sítios”.

Os turistas são, apesar de tudo, a alegria dos funcionários da Torre de Belém. “Duvido que alguém passe por aqui e não goste”, reconhece Júlia, que considera a Torre e o Mosteiro dos Jerónimos “os monumentos mais importantes do país”. Na varanda dos Reis, Miguel vai contando: “aqui era o local onde os reis se vinham sentar a apanhar sol, quando desembarcavam” – não passamos por nenhum canto do edifício sem que ele nos explique a sua história.

Escritos na parede e outros lamentos

Na sala das audiências (“onde se decidiam as coisas importantes da guerra”, conta Miguel), falamos da estrutura do monumento. “Mantém-se a estrutura original, mas faz-se manutenção, porque se não se conservasse já não existia nada disto”, adianta Miguel. Sentados na antiga lareira, são unânimes em reconhecer que “o pior são as escolas”. Júlia diz: “quando vêm muitos jovens ao mesmo tempo, escrevem nomes na parede, datas de nascimento, nomes de namorados, e até escrevem que cá estiveram”. O local preferido é o interior das vigias, longe dos olhares dos vigilantes. Quando chegámos ao topo, entrámos e confirmámos o facto. Os tetos das vigias estão cheios de escritos – “os que são a lápis conseguimos apagar, mas o pior é quando escrevem a caneta”, lamenta Miguel.

Passamos, antes de chegar ao local mais alto, pela capela. No lugar do altar há agora uma televisão que vai passando um filme sobre a Torre. Pelo menos, quando não há muita humidade a impedir o aparelho de funcionar, como foi o caso desta vez. “É pena não haver aqui cerimónias, ainda podia estar aqui um altar e outras mobílias”, diz Miguel, que ainda se lembra “de ver algumas coisas aqui”. Acrescenta que “até os canhões originais da Torre estão no Museu Militar”.

É precisamente no topo da Torre que Miguel nos conta a sua história, não sem antes apontar para o Mosteiro dos Jerónimos e dizer: “o pior que fizeram foi construir o CCB ali. Tirou a beleza toda que era ver o Mosteiro daqui”. No seu cartão de funcionário, o cabelo e o bigode ainda são escuros, mas este lugar já lhos pintou de branco – “pareço mais velho do que aquilo que sou, mas há muito stress neste trabalho”. A descer as escadas, lembra: “quando era mais novo, descia a correr”. Agora, desce mais devagar. Mas a alegria com que ambos recebem os visitantes à porta continua a mesma.

Já a despedir-se, Júlia ainda se lembra de uma ideia, que Miguel aprova com alegria: “agora para a comemoração dos 500 anos, devia ser muito giro fazermos uma recriação de antigamente… Receber os visitantes vestidos com roupas iguais às que se usavam na época”. Fica a ideia.

 

Texto: João Francisco Gomes

Fotos: Inês Monteiro

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top