Tragédia em Moria: “uma bomba-relógio que finalmente explodiu”

Os incêndios de 9 e 10 de setembro de 2020 destruíram aquele que era o maior campo de refugiados de toda a Europa. A tragédia ocorreu em Moria, na ilha grega de Lesbos. O campo era, para quem lá vivia, um inferno. Sobrelotado, albergava cerca de quatro vezes mais pessoas do que a sua capacidade permitia. As más condições sanitárias inerentes valeram-lhe o estatuto de pior campo de refugiados da Europa. A pandemia veio reforçar esse estatuto. Devido às condições precárias, tornou-se uma tarefa ainda mais complicada manter o distanciamento físico e cumprir as normas de higiene necessárias para evitar a propagação do vírus. “É uma bomba-relógio que finalmente explodiu”, disse o coordenador dos Médicos sem Fronteiras em Lesbos, Marco Sandrone, à BBC.

Marta Gonçalves, de 27 anos, licenciou-se em Ciências da Comunicação, pelo ISCSP, em 2014. No ano seguinte, estava a trabalhar no Expresso, onde se encontra até hoje. Começou a trabalhar a crise migratória por acaso e, à medida que aprofundava o seu conhecimento sobre este assunto, sentia-se mais conectada com o tema. “Eu acho que, tal como eu, ainda muita gente não tem noção da gravidade da situação”, afirma. Em 2018, depois de estabelecer contacto com os Médicos Sem Fronteiras, fez uma proposta ao jornal: passaria uma semana – enquanto enviada especial – em Lesbos, “o lugar onde nem eu nem tu queremos viver”.

Garantiram-lhe três quartos de hora dentro da parte oficial do centro de receção e identificação de Moria. Esses 45 minutos transformaram-se em três horas, pois fingiu ter perdido o material, atrasando-se propositadamente. Marta descreve o que viu nesses momentos como “um valente caos”, ainda que “organizado”: “Olhava à volta e percebia que aquilo normalmente não era assim. Estavam a mostrar-me o que queriam.” À chegada, cruzou-se com um camião do lixo. “Eles mandaram limpar o lixo todo porque sabiam que iam ter um jornalista. E tiveram o cuidado de marcar a minha visita para uma hora em que não havia distribuição de refeição.” Isto porque, segundo conta, os habitantes permaneciam em filas que chegavam a ter seis horas de duração para obterem um saco com comida. Saco este que, posteriormente, era pendurado no teto da tenda ou contentor, para evitar que os insetos e ratos o alcançassem. “Não me deixaram ver o interior do sítio dos contentores onde as pessoas dormiam. Não me deixaram ver as casas de banho. Eu estive sempre acompanhada. Não me deixavam escapar”, assegura.

Uma semana antes dos fogos, foram realizados testes à covid-19, no seguimento dos quais as autoridades detetaram o primeiro caso positivo no campo de Moria. Tratava-se de um cidadão somali, com 40 anos. O campo foi colocado em quarentena, mas tal não impediu que surgissem outros 35 resultados positivos. De acordo com o presidente da câmara de Moria, Yiannis Mastroyiannis, o incêndio deflagrou depois de esses 35 refugiados se terem recusado a ser transferidos para um centro de isolamento. Surgiram confrontos e alguns migrantes começaram a atear fogos. Esta instância é considerada o gatilho há muito previsto por várias organizações humanitárias. O descontentamento dos habitantes não era desconhecido, pelo que a confirmação dos casos positivos de covid-19 poderá ter sido a gota de água que finalmente os motivou a agir, desesperados por saírem dali. Chegaram a Moria em busca de uma melhor qualidade de vida, que não encontraram.

Os fogos da noite de 9 não arruinaram por completo as instalações. Só na tarde seguinte, de 10, quando deflagrou um segundo incêndio, é que as famílias que tinham ficado para trás fugiram das chamas. Levaram consigo apenas aquilo que tinham vestido e o que as suas mãos conseguiam carregar. Posteriormente, quando possível, regressavam para tentar resgatar dos escombros os poucos pertences que não haviam ficado destruídos. O cenário pós-apocalíptico era composto por milhares de sem-abrigo à berma das estradas, nas calçadas, nos descampados, nos estacionamentos e em prédios abandonados.

Dias depois da tragédia, milhares de desalojados procuravam abrigo pelas redondezas de Moria. STRATIS BALASKAS / LUSA

Depois desta tragédia, um dos afetados, Leonie Raymon, natural dos Camarões, esclareceu que ficaram a dormir no exterior do campo, sem ter para onde ir, já que ardeu tudo, e que nenhuma organização ou entidade governamental grega se deslocou ao local para os ajudar. Também Jessie Dongocataba, congolês, alerta para a falta de auxílio sentida, afirmando que gostariam de ter ajuda da comunidade internacional para os tirar daquele local. “Só queremos sair daqui…”, desabafa.

Depois de evacuado o local, impôs-se o desafio de realojar as 13 mil pessoas que lá habitavam (embora a capacidade oficial do campo fosse de menos de 3 mil). As autoridades gregas reagiram prontamente, tendo erguido, nas proximidades de Moria, um centro de acolhimento para albergar, de forma temporária, os desalojados. No entanto, apenas 800 migrantes concordaram, num primeiro momento, em permanecer nas instalações desse acampamento. Os restantes temiam não conseguir deixar a ilha uma vez lá dentro. Os refugiados realizaram, inclusive, protestos em frente ao campo, posteriormente contidos pela polícia. O governo garantiu que apenas aqueles que entrassem no novo campo poderiam contar com o processamento do seu pedido de asilo. Uma semana depois, já pouco mais de sete mil tinham sido realojados no novo campo. Porém, 243 destes tiveram de ficar em quarentena, com resultado positivo na análise ao coronavírus. Para o governo, importava tanto fornecer um teto e comida, como testar os antigos habitantes de Moria à covid-19.

Descontentes com a ideia de serem deslocados para um novo campo sem condições, os refugiados realizaram uma série de protestos. ORESTIS PANAGIOTOU/EPA

A maioria dos grupos do Parlamento Europeu chegou ao consenso de apelar a que não fossem construídos mais campos de refugiados como o de Moria. No entanto, se nada o impedir, este novo campo não será mais do que uma continuação do anterior, considerado, por muitas organizações, o símbolo do fracasso europeu. Ainda assim, o ministro das Migrações grego, Notis Mitarakis, sublinhou o caráter efémero desta solução, assegurando que o plano continua a ser a construção de um campo definitivo, “independentemente da reação da comunidade local”, que se opõe à existência de um novo campo de acolhimento, em quaisquer circunstâncias. Mitarakis reconhece ainda que “Moria não pode continuar assim, com o campo que conhecemos nos anos anteriores. Precisamos de um espaço fechado e controlado, que seja seguro e ofereça condições humanas.” No seguimento disto, o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, anunciou que seria pedida ajuda à União Europeia para a construção conjunta de um campo permanente, com instalações fechadas e entrada e saída controladas.

O Governo acreditava que os incêndios teriam partido de uma ação deliberada, por mão criminosa. A investigação em curso para apurar as origens dos dois incêndios resultou na identificação de seis suspeitos de nacionalidade afegã. Um deles terá abandonado a ilha em fuga. Os restantes cinco foram detidos durante uma operação policial nas estradas locais. “Cinco jovens estrangeiros foram presos enquanto um outro, que foi identificado, ainda está em fuga”, mas a ser procurado, disse o ministro grego da Proteção Civil, Michalis Chrysohoidis, em Mitilene, capital de Lesbos.

As chamas disseminaram-se simultaneamente por vários pontos do recinto e de forma rápida, graças ao vento. Atingiram não só a estrutura, mas também o prado, tendo mobilizado 25 operacionais e 10 veículos. Não houve registo de vítimas ou de feridos graves. O incêndio deixou um rasto de lonas derretidas e aço fumegante. Era em tendas e contentores que Moria albergava cerca de 13 mil refugiados, sendo 4 mil destes crianças. “Chocou-me a normalidade com que viviam ali. Impressionou-me o facto de, de alguma forma, já haver um sentido de casa em algumas pessoas. Não querem estar ali, mas procuram um pouco de dignidade naquilo que têm.” Foi esta a perceção com que Marta ficou depois de ter sido convidada a entrar nos aposentos dos migrantes. Apesar das diferenças culturais, tinham em comum os esforços para manter a hospitalidade e a ociosidade. Conta que só se entrava numa tenda descalço e, uma vez lá dentro, os anfitriões faziam questão de oferecer comida, ainda que escassa.

As condições precárias do campo de refugiados de Moria dificultaram a tarefa de conter a propagação da covid-19. LUSA

Os migrantes procuraram abrigo na capital de Lesbos, Mitilene, a oito quilómetros de distância de Moria. Fugiam em direção ao principal porto para embarcarem em navios rumo ao continente. Contudo, as forças da lei bloquearam o acesso à cidade com recurso a veículos e à polícia de choque, na tentativa de evitar uma emergência sanitária, uma vez que o acampamento se encontrava em quarentena devido ao surto de covid-19. Isto acabou por desencadear confrontos entre migrantes e forças policiais, que inclusivamente recorreram a granadas de gás lacrimogéneo. As autoridades acabaram mesmo por proibir todas as saídas de Moria, num esforço para conter a possível disseminação da covid-19. “Alguns não respeitam o país que os acolhe. Pensaram que se incendiassem Moria deixariam a ilha de forma indiscriminada. O que quer que tivesse em mente quem ateou os fogos, esqueça-o”, esclareceu o porta-voz do Executivo, Stelios Petsas, em conferência de imprensa.

A enviada especial do Expresso regressou a terras lusas com outra visão destas disputas, que já não são de agora. “As pessoas não compreendem como é que eles, estando numa situação tão dramática, ainda se dão ao trabalho de estar em conflitos. Se normalmente já há tensão, numa conjuntura em que tens de esperar duas horas e meia para ires à casa de banho, basta a mínima coisa. Aquilo explode.” Para Marta, o que se passou não foi mais do que “um grito por ajuda, um grito de desespero”, com a seguinte premissa: “Vamos destruir isto, porque, se calhar, se destruirmos, mudamos para um sítio melhor.” Depois de testemunhar as condições em que habitam, Marta percebe a urgência na vontade de mudar e conclui que “é absolutamente perigoso ter ali um filho. Aquilo não é um sítio para qualquer pessoa viver e é menos ainda sítio para uma criança chegar ao mundo.” Na sua opinião, as jovens famílias ainda chegam à Europa com a ideia de que ficarão retidas apenas uns tempos, sem noção exata daquilo que vão encontrar. “E os poucos que têm noção continuam a achar que vale a pena o sacrifício.”

Para além destes confrontos, houve ainda incidentes entre os refugiados e alguns simpatizantes de extrema-direita, que se opunham a dar-lhes asilo. As várias situações de tensão acumuladas acabaram por explodir, o que levou o governo helénico a declarar o estado de emergência na ilha de Lesbos, que conta com uma população de 85 mil habitantes. Deste modo, durante os quatro meses seguintes, e na sequência dos incêndios, o objetivo seria o de agilizar a mobilização de todas as forças nacionais necessárias para ajudar a ilha e os requerentes de asilo. O ministro da Proteção Civil da Grécia disse esperar que, até ao Natal, metade dos 13 mil refugiados tivesse deixado Lesbos, e os restantes até antes da Páscoa de 2021.

A Amnistia Internacional não se absteve de criticar a resposta a esta “emergência humanitária”. A organização não-governamental que defende os direitos humanos exigiu uma ação europeia imediata e atribuiu as culpas da situação às “políticas imprudentes” da União Europeia. Posto isto, a comissária europeia para os Assuntos Internos, Ylva Johansson, anunciou na sua conta de Twitter que a União Europeia vai financiar a transferência de pelo menos 400 menores que não se encontram acompanhados pelos progenitores, garantindo que “a segurança e o abrigo para todas as pessoas de Moria são as prioridades”. Dez países da União Europeia ofereceram-se para acolher estes 400 menores.

“Quando a UE lançar o seu novo Pacto sobre Migração e Asilo, deve ter em conta que a sua política atual para os campos de refugiados fracassou”, acrescentou Adriana Tidona, investigadora da Amnistia Internacional (AI), numa nota enviada às redações. Os 27 mantêm-se divididos quanto à matéria fraturante que são as questões migratórias, principalmente no que diz respeito à reforma do sistema europeu comum de asilo e à distribuição dos requerentes de asilo.

Dez países da União Europeia aceitaram acolher parte dos 400 menores desacompanhados. VANGELIS PAPANTONIS/EPA

Entretanto, a Comissão Europeia apresentou a proposta para uma reforma da política migratória e de asilo da UE (que foi adiada, no início do ano, devido à pandemia). Como tal, criou-se um novo Pacto sobre a Migração e o Asilo da UE, que, em setembro, foi intitulado “um novo começo em matéria de migração”. Durante a reunião dos ministros da Administração Interna dos 27 Estados-membros, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçou que é proposta “uma solução europeia para restabelecer a confiança entre os Estados-membros e a confiança dos cidadãos na capacidade [da UE] para gerir a migração enquanto União.” Esta solução passará por pilares como o de “reforçar a confiança graças a procedimentos melhores e mais eficazes”, “uma partilha equitativa de responsabilidade e solidariedade”, “uma mudança de paradigma na cooperação com países terceiros”, “impulsionar um sistema comum da UE em matéria de regressos” e “um novo e abrangente plano de ação para a integração e a inclusão.”

A 13 de setembro, mais de duas centenas de pessoas participaram numa manifestação, no Porto e em Lisboa, que exigia o acolhimento na União Europeia dos 13.000 refugiados de Moria. As regras da Direção Geral da Saúde para a covid-19 foram seguidas, preservando-se o distanciamento social e efetuando-se o uso correto de máscara. Os manifestantes empunharam cartazes com mensagens como “Solidariedade não tem bandeiras” e “Estamos todos no mesmo barco” e reproduziram um áudio, gravado durante e após o incêndio, que captava a violência policial para com os refugiados.

Organizadas pelo coletivo Humans Before Borders (HuBB), estas manifestações estavam inseridas na campanha “Evacuar Moria já”, que pretende pressionar o Governo e despertar a sociedade civil. “As cartas e as manifestações vão continuar até haver ação, para além de intenção e boa vontade. Para as coisas resultarem têm de ser feitas a longo prazo, porque isto depois passa e os decisores já não sentem essa pressão. Tens de meter sempre o assunto na praça e agrupar a sociedade civil sem a sobrecarregar. Não queremos desanimar as pessoas com tantas notícias más; queremos aumentar a empatia e puxar a ação”, disse à Lusa Raul Manarte, psicólogo humanitário e um dos organizadores.

A secretária de Estado para a Integração e as Migrações, Cláudia Pereira, revelou que Portugal receberia, ainda em setembro, 28 menores não acompanhados vindos de Lesbos e de outras localidades gregas, por via aérea. Seriam colocados em meio urbano, para aprenderem a língua portuguesa, estudarem no país e, mais tarde, se assim desejassem, trabalharem em Portugal. A enviada especial do Expresso a Lesbos, Marta Gonçalves, acredita que, mais ou menos conscientes da fragilidade da sua situação, estes requerentes de asilo nunca deixam morrer a esperança: “É essa esperança de que vão sair dali – independentemente de ser daí a três semanas ou três anos – que os mantém a sobreviver.”

Depois de regressar, Marta trabalhou a história durante três meses. Estava no Mediterrâneo (também em reportagem) quando soube dos incêndios. Chocada, as lágrimas escorreram-lhe pela cara sem que desse conta. O campo de refugiados de Moria, que ficou reduzido a cinzas, havia sido inaugurado cinco anos antes, em 2015, no auge daquela que é considerada a maior das últimas sete crises migratórias, principalmente com o objetivo de limitar o número de migrantes provenientes da Turquia. Tal como Lesbos, outras quatro ilhas gregas próximas da Turquia (Chios, Leros, Kos e Samos) acolhem refugiados em centros operacionais (hotspots). Assim como no de Moria, são mais de 24 mil os migrantes e refugiados a viver em condições precárias nestes campos. Mais do que nunca, torna-se urgente criar uma política europeia efetivamente funcional e pertinente para os migrantes e refugiados.

Fotografia de capa: ORESTIS PANAGIOTOU / EPA

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