Uma stickada na crise

O hóquei em patins é uma modalidade que tem perdido adeptos em Portugal. Mas não o fulgor. A modalidade quer ser ouvida. Mais do que isso; quer ser vista, quer que se fale dela. E, acima de tudo, quer voltar a ser sentida. Alexandre Manuel Madeira Marques, mais conhecido por “Xanoca”, é um dos jogadores da seleção nacional portuguesa de hóquei em patins sub-20, que recentemente venceu o campeonato do mundo da modalidade. Atual jogador do plantel de juniores do S. L. Benfica, “Xanoca” recusou um primeiro convite para vir jogar no clube do coração por razões pessoais. Mas o Benfica não desistiu e dois anos depois voltou a fazer um convite. À segunda aceitou o desafio. Hoje em dia é um jovem satisfeito e com fortes ambições para o futuro. Viemos conhecer esta jovem promessa do hóquei em patins, que nos explica o porquê de ter escolhido este desporto e nos fala um pouco do seu percurso.

Este é o teu terceiro ano no Benfica. Como foi o teu percurso até chegares a este clube?

– Comecei a jogar hóquei quando tinha três anos. Um pouco mais tarde entrei na equipa de Oliveira do Hospital, clube da minha terra natal. Estive lá até surgir um convite para ingressar na equipa de juniores do Benfica. Já tinha havido um primeiro convite, quando ainda estava no primeiro ano de juvenil, mas na altura senti que não tinha condições psicológicas para aceitar o convite. Mas, felizmente, o Benfica não desistiu de mim, continuou a acompanhar o meu percurso e voltou a mostrar interesse. Dessa vez aceitei e, portanto, entrei para o Benfica no primeiro ano de juniores.

De entre tantos desportos, porquê o hóquei?

– O meu pai já tinha sido guarda-redes numa equipa de hóquei e isso pesou bastante no momento de escolher um desporto. Contudo, só me mantive lá porque gosto do que faço.

O teu pai foi, portanto, a tua primeira referência nesse mundo. Tens mais alguma?

– Desde pequeno que gosto do Pedro Alves, que é, na minha opinião, um dos melhores jogadores portugueses. Acho que sempre foi um jogador com grande qualidade e bastante trabalhador. Gosto bastante de o ver jogar e serve como exemplo para mim a nível desportivo.

No que diz respeito à tua ida para o Benfica, estás satisfeito com a mudança ou ainda é difícil viver longe da família?

– Sem dúvida que a minha mudança para Lisboa foi um dos momentos mais difíceis da minha vida até agora. Em primeiro lugar, Lisboa é muito diferente de Oliveira do Hospital, pois é uma cidade muito grande, sempre com muito movimento, enquanto Oliveira do Hospital é um sítio muito mais calmo, até mesmo mais acolhedor. Em segundo lugar, foi difícil a adaptação a um novo estilo de vida. É um choque grande deixar de viver com os pais e começar a viver sozinho. Apercebi-me da falta de pequenas coisas, como não ter o pequeno-almoço pronto quando acordo, por exemplo. E, em terceiro lugar, a responsabilidade que temos por viver sozinhos e longe da família é muito acrescida, até mesmo na escola.

E em relação à adaptação ao Benfica? Foi também difícil ou o facto de viveres com alguns dos teus colegas de equipa na mesma casa ajudou?

– Sim, ajudou bastante. Sempre senti confiança com os meus colegas. Três deles jogavam comigo desde pequenos; também são de Oliveira do Hospital. O facto de ter vindo para Lisboa acompanhado por eles facilitou um pouco o processo de adaptação e torna o dia a dia menos monótono.

Sendo todos jogadores do mesmo clube e estando a lutar pelos mesmos objetivos, sentias algum tipo de competitividade por parte deles?
– Nos clubes há sempre alguma competitividade e alguns conflitos, e o Benfica não é exceção. Antes pelo contrário – por ser um clube grande, a competitividade é maior. Mas sempre senti que esta competitividade era saudável; nunca deixámos de confiar uns nos outros. Acima de tudo somos colegas de equipa e amigos, e isso é que é importante.

O facto de pertenceres a um grande clube ajudou-te a chegar à Seleção Nacional?

– Sim, sem dúvida. Quando jogava no Oliveira do Hospital, não tinha visibilidade suficiente para ser chamado à seleção nacional. É mais difícil darmos nas vistas quando somos atletas de clubes que não são de referência. Apesar disso, antes de vir para o S.L. Benfica, ainda fiz um estágio com a seleção nacional sub-17, mas depois fiquei de fora. Quando vim para o Benfica isso mudou. No meu primeiro ano aqui, voltei a ser chamado para um estágio e fiquei de fora, mas, no segundo ano, que foi este que passou, fui chamado para todos os estágios e acabei por ser selecionado para o mundial sub-20.

Mundial esse que a seleção portuguesa ganhou. Qual a sensação de ser campeão do mundo?

– Eu acho que não há palavras para descrever. A emoção que se sente no momento não é descritível… É algo absolutamente extraordinário!

Qual foi o momento mais marcante da tua carreira desportiva? Foi a conquista deste mundial?

– Há muitos momentos que ficam na memória… Quando se marcam golos em jogos difíceis, quando se conquista um título… Há muitos ao longo de uma época, mas a conquista do mundial foi o melhor até agora.

Como foi a reação da comunicação social a essa conquista?

– Por acaso essa é uma questão muito importante. Sinceramente, não estávamos à espera de tanta imprensa quando aterrámos, nem de tanto destaque nos jornais. Penso que a única falha foi na transmissão dos jogos. Não houve nenhum canal português a desempenhar esse trabalho. Em Portugal, se alguém quisesse assistir a um jogo tinha de ir ao site da organização, e nem toda a gente sabia dessa possibilidade, pois também essa teve pouca divulgação.

Para além da conquista do mundial, um dos jogadores da tua equipa, o Diogo Neves, foi eleito o melhor do torneio. Pode dizer-se, portanto, que foi eleito o melhor jogador do mundo nesta categoria. Este prémio ajuda a elevar o valor da equipa?

– Obviamente que valoriza mais a equipa. E acho que ele mereceu esse destaque individual, pois trabalhou para isso. O Diogo foi decisivo em jogos difíceis, como por exemplo no jogo contra a Colômbia, em que marcou quatro golos, ou contra Espanha, em que marcou dois. Julgo que foi um reconhecimento justo.

A propósito desse jogo com Espanha, ultimamente a seleção espanhola tem mantido uma grande hegemonia a nível mundial neste desporto. Achas que o facto de Portugal ter derrotado Espanha pode ser um sinal de que esse ciclo está a mudar?

– Espanha tem sempre boas equipas, assim como Portugal. Acho que são bastante equilibradas. Mas o facto de termos ganho este ano, depois de já os termos eliminado do campeonato da Europa sub-20 no ano passado, quer dizer alguma coisa. Acredito que seja de facto um ponto de viragem.

A nível de apoios por parte do Estado, e até dos próprios clubes, achas que os que existem são suficientes?

– Na minha opinião, o hóquei merecia ter mais destaque. Aliás, penso que também outras modalidades mereciam esse destaque. O hóquei português tem conquistado importantes títulos a nível internacional, por isso até tem justificado um maior incentivo e um maior apoio. Mas o hóquei continua a ser muito desvalorizado. Esperamos que, com estes títulos, esta modalidade volte a ganhar o destaque que já chegou a ter, de forma a valorizar este desporto, que tantas alegrias tem dado aos portugueses.

E o Benfica apoia suficientemente o hóquei?

– Sim, sem dúvida! O Benfica é a equipa portuguesa que mais apoia as modalidades, e nesse sentido o hóquei sai beneficiado. E tem de continuar a fazê-lo, pois são as modalidades que têm dado as maiores alegrias ultimamente…

Tendo em conta não só os apoios que são dados pelas diferentes equipas ao hóquei em patins, mas também a qualidade de jogo, em que equipa é que gostavas de jogar?

– O meu sonho era jogar no Barcelona. Penso que qualquer hoquista gostaria de jogar nessa equipa. Mas, a curto prazo, tenho de me concentrar em fazer um bom trabalho nos juniores para poder chegar aos seniores do Benfica, que é algo muito difícil de alcançar e que só alguns jogadores conseguem.

Se não fosses jogador de hóquei, que profissão gostavas de ter?

– Não sei… Seria certamente algo ligado ao desporto. Mas não me imagino a fazer outra coisa.

Estás num curso profissional de Gestão Desportiva. Que lugar ocupa então a escola na lista das tuas prioridades?

– Tenho conseguido conciliar bem as duas coisas, o hóquei e a escola. Sobretudo agora, que estou no último ano, tenho mais tempo livre e, portanto, é mais fácil organizar-me. Mas a paixão pelo hóquei acaba sempre por se sobrepor ao resto.

Que conselho darias aos jogadores mais jovens que quisessem chegar à seleção nacional e ser, também eles, um dia, campeões do mundo?

– Nunca desistam. Não baixem os braços perante as adversidades. Podem até ter um ou outro percalço, mas nunca desistam. Por mais difícil que possa parecer uma situação, não deixem de trabalhar nem de treinar, pois um bom jogador só consegue vingar se se dedicar muito.

PERFIL

Xanoca
Alexandre Manuel Madeira Marques nasceu no dia 2 de agosto de 1994 em Oliveira do Hospital. Quando tinha apenas três anos, teve o seu primeiro contacto com um stique e, ainda que na altura não o soubesse, o primeiro contacto com uma modalidade que transformaria a sua vida: o hóquei em patins. Desde cedo “Xanoca” – alcunha que lhe foi atribuída pela família e pela qual ainda é hoje conhecido – mostrou ter jeito para o desporto. Alexandre não hesitou quando os seus pais quiseram inscrevê-lo num desporto. Os seus pais “sempre acharam que devia fazer exercício e praticar um desporto”. Tendo em conta o facto de o seu pai ter sido guarda-redes de hóquei em patins, “a escolha foi fácil”, diz-nos o atleta. Ingressou no clube de Oliveira do Hospital e foi lá que deu os primeiros passos na modalidade. Foi precisamente neste clube do distrito de Coimbra que “Xanoca” começou a dar nas vistas e a chamar a atenção de grandes clubes. Quando tinha apenas 15 anos, recebeu um convite para jogar no S.L. Benfica. Apesar de ter noção de que “se tratava de uma grande oportunidade”, não pôde aceitar o convite por achar que não estavam reunidas as condições para deixar Oliveira do Hospital. Mas “o Benfica não desistiu”, como conta, e fez um segundo convite dois anos mais tarde. Desta vez, aceitou o desafio e rumou à capital para cumprir um sonho: “jogar no clube do coração”. No primeiro ano, “o de adaptação”, foi chamado para realizar um estágio pela seleção nacional sub-17. Mas no segundo ano, mais habituado aos ares de Lisboa, deu nas vistas e foi chamado para todos os estágios da seleção nacional de hóquei sub-20, acabando mesmo por ser convocado para o mundial da modalidade. Foi precisamente nesta competição que Xanoca alcançou o seu “momento mais alto”, nas suas palavras, ao sagrar-se campeão do mundo pela seleção nacional.
Nunca pôs os estudos de parte e está atualmente no último ano do curso profissional de Gestão Desportiva. Apesar de estudar, não se imagina “a fazer outra coisa” para além de jogar hóquei em patins. O seu maior objetivo a longo prazo é chegar ao Barcelona. A curto prazo, chegar aos seniores do Benfica. Xanoca deixa ainda uma mensagem de esperança para aqueles que se querem lançar nesta modalidade, que acredita ainda estar a dar cartas para merecer uma maior atenção por parte do povo português.

Por: José Pedro Francisco e Maria Serrano

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