Uma viagem que nunca acaba

Meses a fugir dos conflitos dos seus países, a deixar os seus familiares para trás, a lutar pela sobrevivência em busca de uma vida melhor: é por tudo isto que muitos refugiados têm de passar antes de chegarem a Portugal, com a esperança de conseguirem um modo de vida estável.

“Eles são uns heróis” é uma frase repetida no Centro de Acolhimento Temporário para Refugiados em Lisboa para descrever os refugiados que ali encontram aconchego.

Tanto a professora de português, Teresa, como a funcionária Carla concordam. E, por isso, o trabalho que fazem é muito gratificante: “O meu foco é fazer o melhor que posso. Tornar a vida destas pessoas o melhor possível”, afirma Carla, com um sorriso.

Samso, que habita no Centro há dez meses e meio, não deixou de demonstrar gratidão por todo o apoio e aprendizagem que tem recebido em Portugal.

Quando lhe perguntámos se queria voltar para o seu país de origem quando os confrontos terminassem, Samso não hesitou na sua resposta: “Não, foi uma escolha minha. Não sou como algumas pessoas que escolhem e depois se vão embora. Eu estou feliz”.

O Centro como um meio para uma vida normal

A Câmara Municipal de Lisboa uniu esforços para encontrar uma nova residência para sediar o Centro de Acolhimento Temporário para Refugiados. O espaço escolhido acolhia anteriormente a Associação de Deficientes das Forças Armadas.

A 22 de fevereiro de 2016, o Centro de Acolhimento Temporário para Refugiados abriu na Quinta das Camélias, no cruzamento das Linhas de Torres com a Avenida Rainha D. Leonor.

Ali funciona o Programa Municipal de Acolhimento de Refugiados. Este Centro foca-se na ajuda de pessoas recolocadas que vêm da Grécia e de Itália.

O programa está dividido em três fases: acolhimento, acompanhamento e integração. A primeira etapa inicia-se assim que os refugiados chegam ao aeroporto. Uma equipa da JRS (Serviço Jesuíta aos Refugiados) recebe-os e fica “responsável pelo enquadramento deles na cidade e por tratar das primeiras coisas administrativas, tais como a inscrição no Centro de Saúde, nas Finanças e na Segurança Social e o contacto com a língua portuguesa”, explica Carla Gonçalves, uma das funcionárias do Centro.

Três dias após a sua chegada, os refugiados são encaminhados para o Centro de Saúde para terem a primeira consulta com o seu médico de família. Após este acolhimento, os refugiados estão capazes de circular e deslocar-se autonomamente pela cidade.

O Centro, durante a primeira etapa, “é um espaço de acolhimento para lhes dar alguma segurança” e para que possam ser acompanhados de uma forma mais próxima.

Questões como a língua e a cultura “precisam de um pouco mais de acompanhamento, de paciência”, afirma Carla. Alguns dos refugiados não aprendem português, “por resistência, porque não querem ou porque é difícil”. Outros nem inglês falam.

É através da entreajuda e da mímica que os refugiados que apenas falam a sua língua materna se entendem com a equipa do Centro e com os seus colegas.

“Mas o objetivo não é comunicar com eles em árabe porque, se este é o país em que vão criar uma vida, eles vão ter de aprender a língua e quando querem aprendem rápido”, explica Carla.

Numa segunda fase, a entidade Crescer, associação criada em 2001, dedicada à promoção da inclusão, acompanha os refugiados no planeamento da sua vida futura, na escolha de casa, no enquadramento “no bairro onde a casa se situa, para saberem onde são os transportes, os serviços, para conhecerem o comércio local”.

Carla Gonçalves continua: “O trabalho prévio que é feito aqui em termos de centro é depois continuado ao nível da habitação”.

Como o Centro e os refugiados começaram esta jornada em fevereiro de 2016, os 18 meses de programa já terminaram. Assim sendo, já passaram alguns utentes por esta terceira fase: a integração.

Atualmente, são dez os refugiados que se encontram no Centro de Acolhimento Temporário para Refugiados. Um deles passa por mim, sorridente, mas desconfiado por uma estranha estar no seu território.

Carla começa a falar com ele em inglês. Samso Kadesa é um dos refugiados que reside neste Centro. Alto e bem constituído, as roupas em bom estado e modernas caem-lhe bem sobre o corpo e um sorriso permanece na sua face.

Chegou à Grécia em maio de 2016 e, deste então, o seu objetivo era vir para Portugal. Finalmente, a 2 de março, aos 27 anos, teve o seu sonho concretizado.

Um pouco reticente mas sempre com um sorriso na cara, vai contando que é originário da Eritreia, um país pobre onde os direitos humanos são pouco cumpridos ou não são de todo. Deixou o seu país, os dois filhos e a esposa para vir à procura de uma vida melhor. Permaneceu na Grécia durante dez meses, até ser recolocado em Portugal.

Após quase dois meses a viver no Centro de Acolhimento Temporário para Refugiados, Samso não tem qualquer tipo de expectativas para o futuro; tem apenas a certeza de que “viver em Lisboa é diferente” e está feliz. Através da sua expressão facial, o contentamento e o alívio estão expressos quando afirma “agora estou bem, estou feliz”, expressão que repete várias vezes.

Já pôde passear por Lisboa e visitar o Pavilhão Carlos Lopes e a Estufa Fria. Alguns dos seus colegas visitaram o miradouro das Amoreiras, mas, infelizmente, Samso não teve essa oportunidade. Mantém a sua opinião: “Gosto muito de Lisboa”.

O Centro de Acolhimento Temporário para Refugiados

Um amplo jardim estende-se no exterior da casa. Espaço para se divertirem, para relaxarem, para terem aulas de ioga e para cultivarem não falta. A horta, criada e mantida pelos residentes, já dá alfaces e favas, que depois utilizam para seu proveito na cozinha.

Numa zona com tanto espaço verde em redor, os refugiados usufruem, também, da Quinta das Conchas, que se situa perto do Centro, para jogarem à bola, andarem de bicicleta e criarem uma “vivência comunitária”.

Jardim do Centro de Acolhimento Temporário para Refugiados

No piso de baixo, situam-se as zonas de serviço e as casas de banho e, ainda, o escritório dos funcionários do Centro. Para uso dos refugiados, há uma lavandaria com máquina de lavar e tábua de engomar e “são eles que tratam e cuidam da sua própria roupa”.

No andar térreo, encontra-se a entrada e uma escadaria para os pisos superiores. No primeiro andar, situa-se a área comum a todos os refugiados: sala, cozinha, sala de jantar, sala com mesa de pingue-pongue e com condições para as aulas de português e eventos culturais.

Por vezes, a cozinha não é utilizada, como afirma Carla, pois têm “um serviço de catering, mas, às vezes, [o serviço] não condiz com as necessidades deles e cozinham qualquer coisa”.

O espaço mantém-se sempre limpo e organizado, com muita luz natural. A sala tem sofás e cadeiras para que exista um maior convívio entre as pessoas. Ainda neste espaço, encontra-se, pendurado na parede, um quadro com todas as atividades que ocorrem durante a semana.

Quadro com horários das atividades

No segundo piso, situa-se a zona privada, à qual não tivemos acesso. Carla explica que existem “cinco camaratas e capacidade para 24 pessoas”.

Por fim, no último piso, também interdito à minha passagem, encontra-se um quarto de isolamento “para o caso de haver alguém que traga uma doença ou algum tipo de trauma. Temos um gabinete médico – e no dia de chegada [dos refugiados] vem sempre uma equipa de médicos fazer o primeiro diagnóstico” – e uma sala de culto, onde os refugiados podem rezar.

Do árabe ao português

O relógio marca dez horas. Um a um, os refugiados começam a entrar para a sala. A aula de português vai começar.

Primeiro, a correção dos trabalhos que a professora Teresa mandou fazer fora do horário da aula. Todos têm manuais, cadernos de atividades e um caderno com os seus próprios apontamentos.

Grupo de refugiados na aula de português

A professora fala pausadamente, de forma que todos a compreendam. Quando tal não acontece, o silêncio instaura-se na sala. Não é fácil, mas a professora não desiste.

Frustrados, os alunos mantêm o foco e a concentração. Treinam a leitura, os verbos, bem como a escrita. Uns mais tímidos, outros mais participativos, todos têm o mesmo objetivo: aprender português.

Pode ser complicado, mas Kedesa, o mais falador de todos, reconhece que é importante aprender português e mantém-se otimista: “Por ser novo, é difícil, mas, no geral, não é”.

Após um intervalo de dez minutos, os refugiados voltam à sala. Os meios de transporte são o novo tema de hoje. Distribuídos por seis mesas, cada um possui material próprio. Mostram-se empenhados e curiosos na aprendizagem de novas palavras e verbos.

Para alguns alunos, o progresso está à vista. Já percebem o que a professora diz em português e conseguem, por vezes, responder.

Exercícios realizados pelos refugiados

Curiosamente, certas palavras confundem com o sotaque inglês, como a palavra “decide”. No entanto, a quase nula escolaridade de grande parte dos utentes dificulta o processo.

Uma viagem interminável

Os refugiados, quando chegam ao Centro de Acolhimento, trazem “pouca roupa, alguns bens pessoais, não trazem computadores nem tablets. O essencial para eles é mesmo o telemóvel”.

Carla explicou que para “uma pessoa que está em fuga, que se está a afastar do país onde sempre viveu, que se está a afastar da família e a passar por países que não conhece, o telemóvel é um bem essencial, quer em termos de orientação e segurança quer em termos de contacto com a família que deixou”.

A viagem destes jovens refugiados ainda não terminou. Após passarem pelos três processos que o Centro lhes proporciona, as suas vidas começam a compor-se.

No entanto, vão continuar a carregar a bagagem emocional durante toda a sua vida. “O trauma pode ser bastante grande: experiência de guerra e de fuga, experiência de perder familiares, a questão do gerir o dia a dia, e, por vezes, à mais pequena dificuldade, por exemplo, o facto de não arranjarem trabalho ou a casa não ser a de que mais gostam, podem querer ir embora”, explica Carla.

Estes obstáculos tornam mais difícil o peso que carregam às costas. Peso esse que ficará com eles para o resto da vida.

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