Usar a Arte para reivindicar

Obra de Nomem. Representa o medo da discriminação: uma “máscara” que os residentes usavam ao evitar dizer onde moravam. (MARTA LARANJEIRA)

A Quinta do Mocho, em Sacavém, é hoje a maior galeria de arte a céu aberto da Europa. São ao todo 108 obras que contam a história do bairro e das pessoas que ganharam voz através da arte. Mas ainda há muito mais para contar.  

São dez da manhã de um sábado soalheiro. Junto à Casa da Cultura de Sacavém juntou-se um grupo de dez pessoas que desejam conhecer o bairro da Quinta do Mocho de uma forma diferente. A maioria vem da zona de Lisboa. Foi o “boca a boca” que os levou até ali: alguns apareceram por recomendação de amigos, outros vieram porque leram os comentários que se encontram nas redes sociais. Do grupo, que junta gente das mais variadas idades, destacam-se três mulheres, com idades a rondar os 60 anos, pelo entusiasmo que demonstram. É já a terceira vez que participam nesta visita. Mas, apesar de já conhecerem os cantos do bairro, acreditam que todas as vezes que entram na Quinta do Mocho descobrem mais uma obra nova ou uma história diferente das que já ouviram.

Este sábado veremos o bairro através dos olhos de Emanuela, mais conhecida por Ema, e de Kally, dois residentes que decidiram fazer da sua “casa” um negócio. Mas, mais do que um negócio, o bairro é uma reflexão sobre a sociedade atual.

Um bairro com armadilhas

Ema começa por contar a história do bairro. Apesar do resumo simples e descontraído que faz da origem do bairro, é fácil perceber a dura e longa luta que estes habitantes tiveram de travar. Foi na década de 70 que os primeiros habitantes chegaram a esta zona. A maior parte era oriunda de países africanos, como Angola, Moçambique ou São Tomé e Príncipe. Fugiam da guerra e dos problemas que dela advinham. Mas acabaram por encontrar outra guerra igualmente difícil de ganhar: a da burocracia portuguesa. Estas pessoas chegavam sem documentos, trabalho ou habitação. 

O primeiro problema a resolver era o da habitação. Construíram pequenas barracas, aproveitaram prédios inacabados e abandonados por um construtor, e chamaram-lhes lar. O segundo problema a solucionar era o da documentação. Mas esta não lhes era dada a não ser que arranjassem trabalho, o que também era impossível: afinal, eram pessoas sem documentação. Uma vez dentro dessa armadilha burocrática, a vida destas pessoas apenas piorava, sem que nenhum dos seus problemas ficasse verdadeiramente resolvido. Ainda assim, o bairro ia crescendo, e cerca de vinte anos depois já havia cerca de 3500 a 4000 pessoas a viver nestas condições, segundo Ema.

Obra de MTO. Simboliza a forma como as pessoas chegavam ao bairro, vindas maioritariamente de África. (MARTA LARANJEIRA)

O espaço foi-se tornando cada vez mais pequeno para o número de pessoas que ia chegando. À medida que as barracas iam crescendo, as condições de vida destas pessoas pioravam. A documentação e o trabalho nunca mais apareciam e, por isso, as hipóteses de sobrevivência escasseavam. Começaram assim a surgir os primeiros crimes. A outra hipótese era apenas os trabalhos duros que mais ninguém queria, como a construção civil ou as limpezas. Para quem escolhia este caminho, tornava-se difícil estar em casa a cuidar dos filhos – e estes cresciam, por isso, sem a orientação dos pais. A partir daqui foi-se do oito ao oitenta à velocidade da luz. Os pequenos crimes aumentaram e, quando se deu por isso, o bairro já se tinha fechado sobre si próprio. E assim permaneceu durante cerca de 20 anos. 

No final dos anos 90, a Câmara Municipal de Loures despertou para a situação. Em 1997 iniciou-se o projeto que visava dar uma melhor qualidade de vida a estas pessoas. Os prédios inacabados foram destruídos e, junto ao local onde se encontrava a maioria das barracas, foram construídos prédios de quatro andares. Em 2001, já todas as famílias tinham sido realojadas nas novas casas. Ficou, pela primeira vez, um problema resolvido. As rendas baixas e as melhores condições habitacionais vieram dar um fôlego novo a este bairro. Desde essa altura, o bairro tem conseguido ultrapassar os seus problemas, um a um. Hoje é, como explica Ema, um lugar mais calmo, onde toda a gente é bem-vinda.

O abrir portas

O graffiti foi o principal motor para a transformação do bairro. Em 2014, um festival de arte urbana chamado “O Bairro i o Mundo” trouxe as seis primeiras pinturas para o bairro. A iniciativa partiu da Câmara Municipal de Loures e tinha como mote “mostrar o bairro ao mundo e trazer o mundo ao bairro”. Atualmente, a Quinta do Mocho é a maior galeria de arte urbana a céu aberto da Europa. Aqui encontramos nomes portugueses já muito conhecidos do público, como Bordalo II ou Vhils, e nomes de pessoas que vieram do outro lado do mundo, como é o caso de Gab and Elna, o grupo Brothers of Light, que vêm de Israel, ou de Pokras Lampa, que vem da Rússia. Todas as 108 obras foram realizadas de forma voluntária e os artistas fazem questão de colocar em cada graffito a essência do bairro.

A arte foi a melhor forma que os habitantes da Quinta do Mocho encontraram para contar as suas histórias. Encontramos aqui não só referências à música e à diversidade cultural, como também às dificuldades de integração que estes imigrantes enfrentaram e à discriminação de que foram alvo durante muito tempo. “Usámos a arte para reivindicar”, conta Ema.  Foi assim que ganharam o direito a ter uma voz – uma voz que utilizam também para ajudar as gerações futuras. Por todo o bairro ecoam mensagens de incentivo às crianças. “Nunca deixes que te digam nunca”, lê-se na obra de Mário Belém, um artista português de 42 anos, oriundo de Carcavelos.

Obra de Mário Belém. É um incentivo para que as gerações mais novas não deixem de acreditar que podem fazer tudo o que desejarem. (MARTA LARANJEIRA)

Emanuela tem 27 anos. Carrega o filho mais novo no carrinho durante toda a visita. Ele permanece sempre em silêncio, deliciado com as histórias que a mãe vai contando a cada passo que dá. Ele é o futuro do bairro, tal como tantas outras crianças que por aqui brincam. Ema explica que, durante muito tempo, os pais diziam às crianças que não podiam seguir os sonhos delas. A nova geração diz que jamais podemos desistir deles. Emanuela é o exemplo disso. É estudante de enfermagem e ao mesmo tempo comanda a empresa que realiza visitas guiadas, a Kallema, juntamente com o seu sócio. Antes chegou a participar de forma voluntária nas visitas guiadas gratuitas que a Câmara Municipal de Loures faz desde fevereiro de 2015, nos últimos sábados de cada mês. O mote era o mesmo: mostrar o bairro àqueles que tivessem curiosidade de conhecer a sua história. Mas, com filhos para sustentar e com tão pouco tempo para isso, Emanuela teve de desistir do voluntariado. Mas não se ficaria por aí. A verdade é que ela conseguia ver o potencial do bairro: “Percebi que a Quinta do Mocho tinha imensa riqueza, apesar de esta não estar a ser bem aproveitada”.

Surgiu então, em 2017, pela mão do seu namorado da altura, Kally Meru, a oportunidade de tornar as visitas num negócio. Ema conta que de início tratava da parte de backstage: “Como sou uma mulher, tenho sempre de meter o bedelho em qualquer coisa e, por isso, comecei por organizar o material, pequenas lembranças que se vendiam aos visitantes… Mas, como tinha a mania de fazer tudo, o Kally propôs-me que fizesse também as visitas guiadas. A minha resposta foi apenas: e achas que não sou capaz?” Num instante foi criada uma página no Facebook e o número de visitas começou a crescer.

Ema e Kally já receberam todo o tipo de pessoas: desde turistas a curiosos de todas as idades, qualquer um é bem-vindo. Em 2018, decidiram inscrever-se no programa “Empreende Já”, do Instituto Português do Desporto e da Juventude, que premiava com 10 mil euros os 90 melhores projetos apresentados. A Kallema, empresa de Ema e Kally, foi criada depois de terem ficado em 11.º lugar num concurso com 1054 candidaturas. “Eu sabia que a Quinta do Mocho tinha potencial para ser um negócio a sério. Mas foi muito difícil: tinha acabado de perder um filho, estava grávida e andava a mil. Apesar de tudo, consegui.” Em 2017, mais de 3000 pessoas participaram nas visitas guiadas da Kallema.

Emanuela, a guia, descreve cada pormenor dos graffiti e o que cada um representa. (MARTA LARANJEIRA)

O sucesso das visitas, explica Emanuela, está não só nas mensagens que as obras passam, e que em geral as pessoas apreciam, como também na forma como o bairro recebeu estes visitantes. Durante a visita, Ema aproveita várias vezes para também partilhar as histórias daqueles que conseguiram levar o nome do bairro mais longe. DJ Nervoso é um deles. A sua história serviu de inspiração para Vhills, que pintou o seu rosto numa das paredes do bairro. De dia, DJ Nervoso trabalha na construção civil, o trabalho de muitos residentes do bairro, mas de noite é um famoso DJ. O objetivo de Vhills foi mostrar que não se deve nunca ter vergonha da profissão que se exerce, mas também demonstrar que todos os sonhos são possíveis. Principalmente agora que o bairro está mais aberto para o mundo.

Ema abraça o DJ Nervoso quando se depara com ele no meio da visita. Ele é um dos orgulhos do bairro, explica Ema ao grupo de visitantes. DJ Nervoso é uma das pessoas que beneficiaram da abertura do bairro. Sem a desmitificação da Quinta do Mocho, era impossível para muitas pessoas sair do bairro sem vergonha de dizer a sua origem. Ema esclarece de que forma a arte urbana foi um abrir de portas: “Abriu a porta invisível, mas que sempre foi visível para nós, entre a Quinta do Mocho e o resto do mundo. A porta foi aberta pelos artistas e pela câmara. Mas, depois de a porta se abrir, surgiram os dois lados da questão: o lado que decide se quer entrar ou não, e o lado que decide se quer receber ou não. Porque, se a porta fosse aberta e nós não vos quiséssemos receber, a porta não estaria aberta para ninguém.” A forma como as pessoas saem das visitas guiadas mostra que todo o esforço valeu a pena. “A arte urbana é o chamariz, mas nós temos muito mais. Temos a música, a dança, os eventos que fazemos e o almoço. Durante as visitas as pessoas sentem o bairro muito para além das obras. Há tanta coisa para ver… E percebe-se que é bom quando uma pessoa que já cá veio regressa quatro ou cinco vezes e continua a partilhar o entusiasmo dos outros.”

Uma voz que não pode ser silenciada

É quase uma da tarde. Estamos há cerca de três horas a percorrer as ruas do bairro, observando cada pedaço de arte que ele tem para mostrar. O cansaço é visível na maior parte dos visitantes. A descontração e alegria de Ema e Kally aligeiram o ambiente, mas a verdade é que muitos já só pensam no almoço que aí vem: a cachupa no restaurante do bairro. No entanto, nos minutos finais de caminhada, Ema aproveita para descansar perto de um parque infantil. O parque não está acabado: parte do chão continua por colocar e só há um escorrega, que é difícil alcançar porque ainda não tem as escadas de acesso. Tal como o resto do equipamento, está apenas pela metade. Não há marcas de uso em lado nenhum. Ema senta-se à beira do gradeamento e assume pela primeira vez uma postura séria, mesmo depois de falar de temas como a violência dentro do bairro. O assunto toca-a. O grupo, em silêncio, ouve a guia com toda a atenção.

Parque infantil da Quinta do Mocho, que se encontra incompleto. (MARTA LARANJEIRA)

“A Câmara Municipal de Loures deu-nos uma coisa muito importante, que foi a arte urbana. Ouvir tanta gente a falar bem da Quinta do Mocho sobe-me a autoestima. E isso ninguém nos tira. É nosso.” Depois de a Quinta do Mocho se tornar a maior galeria de arte urbana da Europa, os residentes no bairro conseguiram respirar de alívio. Já podiam dizer sem problemas a sua morada e ninguém os iria discriminar por isso – muitas vezes até pelo contrário.

Mas mesmo por detrás das coisas boas existe sempre um lado B da questão. “Estamos a transformar numa galeria um sítio onde mora muita gente. É um orgulho, mas há que ter cuidado, e não esquecer que isto é também a casa das pessoas. E que aqui estão também desejos e vontades que merecem ser ouvidas.” Uma dessas vontades é o parque: “O parque infantil tem para nós a mesma importância que qualquer criança tem no mundo. Já não é só o equipamento físico: é tudo o que ele simboliza. É uma luta que já se tornou de todos, desde pequenos a graúdos. O parque infantil simboliza a esperança. E nós acreditarmos que é possível, se batalharmos muito.” A Câmara Municipal vai fazendo o que pode em relação às queixas dos moradores. Mas os habitantes vão perdendo a esperança de que as obras de arte os consigam continuar a ajudar. A diferença já se nota no modo como os artistas são recebidos: no início tinham direito a grandes festas, como forma de agradecimento pelo que faziam pelo bairro; agora o entusiasmo já não é tão grande. As coisas mudaram, mas ainda não o suficiente. As ruas mantêm-se sem nome, os prédios sofrem infiltrações de água, que resultam em infestações de mosquitos, e o parque continua incompleto. Depois de várias tentativas de contacto, a Câmara Municipal de Loures ainda não se pronunciou sobre o assunto.

É preciso continuar a usar a arte para reivindicar.

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