Vale tudo pelas audiências?

Com uma plateia numerosa, muitos aplausos e algumas selfies à mistura, três caras muito conhecidas da televisão portuguesa participaram no segundo debate organizado pela “Notícias TV”, esta terça-feira, na Escola Superior de Comunicação Social. Teresa Guilherme, Daniel Oliveira e Júlio Isidro discutiram temas como os reality shows, o desafio de produzir conteúdos televisivos e a pressão das audiências.

Novos desafios
“Entretenimento: vale tudo pelas audiências?” foi a pergunta que conduziu a conversa entre três produtores televisivos de peso. Lembraram-se as mudanças ocorridas no mundo da televisão desde os seus primeiros anos, em Portugal: feita em tempo real, sem a ajuda de computadores ou gravadores, há 57 anos a emissão do único canal português – a RTP – começava e acabava com o hino nacional. Hoje, a televisão ganhou uma dimensão completamente diferente, mas como “nada se perde, tudo se transforma”, é necessário olhar para trás para compreender o presente e planear o futuro. “Temos de saber de onde vimos para saber para onde vamos”, acrescentou Júlio Isidro, dirigindo-se em especial aos estudantes de comunicação, representados em grande número na plateia.
O tempo televisivo é uma das grandes alterações sofridas pela televisão. Nas palavras do produtor, com 54 anos de carreira, “antes o país ficava parado para ouvir um programa sobre música ou cultura”, mas nos últimos anos a Internet e os novos dispositivos eletrónicos parecem ter entrado no caminho da televisão e os interesses são outros. “As pessoas interessam-se e desinteressam-se em 30 segundos”, sublinhou Teresa Guilherme, e assim aumentam os desafios dos produtores de conteúdos televisivos, que não têm só de competir com os outros canais de televisão.

Pior é melhor?
Os reality shows e a luta pelas audiências deram outro ritmo ao debate e, entre uma Teresa Guilherme espontânea e sem papas na língua e um Júlio Isidro incisivo mas mais moderado, a pergunta a que se queria responder era óbvia: vale tudo pelas audiências?
Programas como a “Casa dos Segredos”, reality show apresentado por Teresa Guilherme, ganham apoiantes a olhos vistos mas também são muito criticados e servem de exemplo quando se fala dos limites para se ser líder de audiências. Para a “diva dos reality shows”, estes programas “são malditos e malvistos mas ao mesmo tempo são transversais a todos os grupos de espectadores”. Teresa Guilherme defende que a televisão foi entregue pouco a pouco a quem a vê e que as pessoas querem cada vez mais emoções rápidas e instantâneas. “Temos de dar o que as pessoas querem ver”, concluiu. Já para Júlio Isidro – que, na opinião de Teresa Guilherme, não servia para apresentar reality shows –, “não se pode fazer audiências custe o que custar”. O apresentador admite que, quer queiramos, quer não, a televisão é uma indústria na qual o público é comprado e não conquistado, mas “se lá conseguirmos meter arte e cultura, ótimo”, acrescentou.
Apesar de Daniel Oliveira considerar que o sucesso de um programa não se resume às audiências que conquista, a verdade é que estas são realmente uma componente fundamental e, com a pressão gerada pelo aumento do número de canais por cabo e pelas novas formas de entretenimento disponíveis fora da televisão, os canais generalistas precisam de ganhar vitalidade e chegar com mais eficácia aos chamados infoexcluídos.
A utilidade e o interesse dos programas daytime, como por exemplo “Boa Tarde” (SIC) ou “Você na TV” (TVI), foi um ponto que dividiu opiniões. Associando-lhes uma “função social”, Daniel Oliveira considera que, ainda que superficialmente, estes programas também fazem informação. Para Júlio Isidro, que afirmou ver serviço público na SIC e na TVI, é possível informar e entreter ao mesmo tempo. Já Teresa Guilherme salientou a função de distrair que a televisão assume muitas vezes: “A televisão não tem sempre de ensinar alguma coisa e as pessoas têm de se divertir e sair da sua zona de sofrimento”.

Produtores vs. Apresentadores
Os apresentadores são só uma pequena parte da televisão, “comandados à distância”, nas palavras de Júlio Isidro, e o verdadeiro desafio está nas mãos dos produtores, cuja principal função é contar uma história, criar afetos e uma ligação com o telespectador – o que não é tão fácil como pode parecer.
O futuro da televisão é incerto e, com a ameaça de novos suportes que possam satisfazer as necessidades dos consumidores de entretenimento, a luta pelas audiências televisivas antevê-se cada vez mais intensa. Mas a função vai sempre ser a mesma: “aproximar as pessoas das pessoas”, o que, na opinião de Teresa Guilherme, não acontece noutros meios.

Texto: Ana Rita Caldeira

Imagem: Lourenço Santos

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