Ver Portugal aos quadradinhos

Um estudante de gestão, filho de um militar, muda drasticamente de carreira para começar o seu próprio negócio. Parece o início da história de uma personagem de Banda Desenhada (BD), mas não é. É a vida de Mário Freitas, um dos principais editores de BD em Portugal. É também o fundador da Kingpin Books (KB), a maior loja deste género de livros no nosso país.

Quem passeia pela Avenida Almirante Reis e entra na KB depara-se com um espaço repleto de algumas das maiores obras aos quadradinhos do passado e do presente. O Homem-Aranha ao lado do Super-Homem e o Homem de Ferro frente ao Batman. Também encontra trabalhos menos conhecidos de autores portugueses e até do próprio Mário. Se tiver sorte, poderá vê-lo no seu gabinete, no andar de cima da loja. Enquanto acabava a capa de mais um livro a ser publicado pela KB, Mário Freitas fez uma pausa para falar com o 8ª Colina acerca do seu percurso, que é também o percurso da sua loja. Nesta história, vemos o reflexo de um meio que luta para se libertar dos adjetivos “infantil” e “simples”.

Mário gosta de sublinhar o seu amor por uma personagem criada por Stan Lee e Jack Kirby: o Homem-Aranha. O facto de o filme Aquaman ter feito mais dinheiro que o mais recente filme do “Aranhiço” (Spider-man: Into The Spider-Verse) é, para si, um motivo de grande tristeza. (André Fernandes)

Comecemos pela história da loja. Como é que a Kingpin surgiu?
Começámos como uma loja exclusivamente online. Na altura foi olhada com enorme desconfiança, e até escárnio. Diziam-me “sim, isso do online deve vender à brava”.

KB existe desde 1999. Estes 20 anos de existência são a prova de que o mercado de BD em Portugal é rentável?
Não [risos], não é um mercado rentável. Até podemos estar a falar de coisas diferentes: venda de BD ou edição de BD. A edição não é fácil, porque temos um país muito pequeno, os hábitos de leitura não são assim tão grandes e os hábitos de leitura de BD ainda são menores. Isto porque a BD continua a ser vítima de um preconceito. Embora isso se tenha vindo a contrariar nos últimos anos, continua a haver muito grunho que acha que é para crianças. Depois também há quem ache que é só para intelectuais. As pessoas não percebem que é uma forma de contar histórias, tal como o cinema, a literatura clássica, etc.

Um paraíso para os fãs de BD, com todas as histórias, do mais conhecido dos super-heróis ao mais obscuro dos vilões, prontas a serem lidas (André Fernandes)

Esse estigma está muito patente em Portugal?
Não é só em Portugal, atenção. Há muito poucos países no mundo que não têm esse estigma: França, Bélgica, Espanha, Itália e Japão, talvez. Mesmo nos EUA, que têm um mercado enorme de BD – têm Marvel, DC e mais não sei o quê –, existe um estigma tremendo em relação aos leitores de BD. Por isso é que nos filmes ainda vemos muito o estereótipo do nerd que lê sempre BD.

Mas na BD tem havido uma mudança para temas mais maduros…
Sim, sobretudo a partir dos anos 80, com os Watchmen, o Dark Knight Returns e outros. Aliás, chegou a haver um paradoxo nos anos 90: tentava-se imitar essas obras, mas apenas se apanhava a parte da violência. Ignorava-se tudo o resto, que era  contar uma boa história. Nessa década temos um manancial de histórias horríveis, pseudo-adultas.

O Mário também já tem uma bibliografia respeitável. Quando escreve as suas histórias, que temas gosta de abordar?
O “Super Pig” sempre foi para mim um veículo para contar qualquer história que eu quisesse. Gosto muito, por exemplo, de subverter personagens históricas. Fiz isso com o “Impaciente Inglês” e o “Fósseis das Almas Belas”: pego em figuras históricas e dou-lhes o meu toque pessoal, arranjo novas lendas e novas histórias. Gosto muito de fazer o contraste entre o velho e o novo, entre as pessoas que estão conformadas e pessoas dinâmicas. O “Super Pig” é muito isso: é a história de um progressista virado para o futuro e que, de uma forma ou de outra, se vê confrontado com personagens muito agarradas ao statu quo.

“Super-Pig”, personagem criada por Mário Freitas, é um porco antropomórfico que é investigador privado. Tem ainda tempo para viver como um playboy na cidade de Lisboa. (André Fernandes)

Sempre teve a ligação a este meio?
Uma das minhas primeiras memórias é de quando tenho três ou quatro anos. Era Natal, tinha um álbum do Spirou na mão e estava a cortar as vinhetas do livro. Também tive aquele contacto inicial com o Lucky Luke, o Tintin, o Asterix e Obelix, e em 1978 fui para a parte da BD americana, quando começaram a sair edições do Homem-Aranha, e quando começou a ser transmitida na RTP2 aquela série dos anos 60, que eu achava que era a melhor coisa do mundo. Desde então, foi uma personagem que me marcou.

Entre os seus amigos e família, houve alguém a estranhar a paixão que mostra pela BD?
É complicado transmitir paixão a alguém que não a tem. Geralmente, quando me deparo com esse estigma, pergunto: “Não há cinema para várias idades? Então porque é que a BD não pode ser para várias idades?”

O meu pai era militar, portanto era uma pessoa habituada a um estilo de vida muito conservador, regido pela hierarquia e pela segurança. Estranhou um pouco quando comecei isto. Sempre que me via perguntava-me “Como é que estão os teus Tintins?”. Mas já tinha 27 anos; não tinha de lhe dar satisfações. Sou licenciado em gestão de empresas e antes de abrir a KB trabalhava como consultor. Costumo dizer que para os meus amigos da gestão sou o tipo da BD e para os meus amigos da BD sou o tipo da gestão. Acho que alguns amigos meus acabaram por estranhar a minha opção mais do que apoiar, mas hoje reconhecem a capacidade que tive de fazer este percurso.

Sente que a BD não é considerada literatura?
BD não é literatura! Banda Desenhada é Banda Desenhada. Há muito essa ideia de que, para tornar a BD respeitável, temos de dizer que é literatura. Não! Literatura é só texto. BD é uma articulação perfeita entre texto e imagem. É uma forma de arte, considerada a nona arte. Não é nem ilustração nem literatura. Nem é uma fusão. É uma ampliação dos dois.

Em última instância, a minha preocupação é sempre contar uma história. Mas uma história que vai ser apresentada visualmente. Porque mesmo o texto em BD tem de ser apresentado de forma visual. É muito importante a fonte que escolhemos, o estilo de balão, etc.

Os filmes de super-heróis, que têm tido tanto sucesso comercial na última década, contribuem para um aumento do interesse na BD? (André Fernandes)

Não sei, sinceramente. Há alguns casos em que sim, como o Deadpool, que até ao seu filme era uma personagem quase desconhecida. Mas, por exemplo, o filme do Aquaman tem tido imenso sucesso e não é por isso que as pessoas vêm cá comprar livros dele.

Na altura da morte de Stan Lee, no ano passado, houve uma série de figuras sem grande relação com a BD a fazerem o seu luto. Acha que, nesse sentido, Stan Lee foi importante para esta indústria?
Sim, foi fundamental. O Stan Lee era um comunicador excecional, desde a forma como comunicava com os fãs à forma como respondia às cartas. Era alguém que fazia parte da comunidade. Teve a capacidade de ir a televisões, a jornais… e, lá está, para muita gente Stan Lee era o criador de tudo, o que acabou por ser reforçado pelos filmes, em que ele fazia sempre uma aparição. Tornou-se a cara da Marvel.

Mas no ano passado morreu também Steve Ditko, o criador do Homem-Aranha, e pouca gente falou disso. O Steve Ditko era o oposto completo de Stan Lee. Era alguém completamente reclusivo. Não há uma fotografia dele desde os anos 60, para ter uma ideia.

 A comunidade de BD portuguesa tem espaço para crescer?
Sim, sem dúvida. Embora não necessariamente no número de edições. Ando a alertar para isto há uns anos. Está-se a atingir uma dimensão excessiva para aquilo que é o tamanho do mercado português, que não é um mercado. É um nicho de mercado. Dou um exemplo de um livro que é o “Elixir da Eterna Juventude”, cuja personagem principal era o Sérgio Godinho e que tinha muito a ver com o seu universo de canções. Editei-o em parceria com o “Público”, e foi dos nossos livros que venderam mais. Mas não foi um grande sucesso financeiro, porque teve uma tiragem muito grande.

Em “Elixir da Eterna Juventude”, obra homónima do álbum e da música de Sérgio Godinho, uma personagem misteriosa dá ao cantor um diário com uma série de enigmas que, quando decifrados, revelam a localização do Elixir da Eterna Juventude.

Inicia-se assim uma aventura (escrita por Fernando Dórdio e ilustrada por Osvaldo Medina) que lança Sérgio Godinho numa aventura pelo universo das suas criações musicais, com os temas da integridade artística e da superficialidade comercial como pano de fundo.

“Elixir da Eterna Juventude” é um exemplo de como a Kingpin Books pretende atingir um mercado para lá do nicho da BD. E talvez esta seja uma das razões para o sucesso da KB: a aposta num público mais alargado. Ou talvez o seu êxito se deva à paixão de um gestor, filho de um militar, e agora empresário de Banda Desenhada. O que é certo é que, enquanto a paixão por estas histórias existir, os quadradinhos da BD em Portugal continuarão a ser ilustrados.

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Scroll to Top