Cachupa: “Ao sair de casa, não sabia quando ia voltar.”

  

         O Cabo da Rocha estava repleto de familiares que se iam despedir. Maria Serrano, com 22 anos, embarcava no paquete Amélia de Melo, com o seu bebé. A rota desta viagem levá-la-ia à cidade do Mindelo, em Cabo Verde, onde o seu marido, José, cumpria o serviço militar. Cinco dias de viagem era o tempo que o navio levava a chegar ao primeiro destino. 

   Quando havia familiares em sítios de guerra (como Angola, Guiné e Moçambique) as viagens eram pagas pelo Estado. Mas o marido estava colocado numa ilha onde não existiam guerrilhas: “Como tínhamos de pagar as duas viagens, que ainda eram caras, decidimos que, no lugar de fazer uma visita de um mês, ficaríamos lá cerca de meio ano juntos.”

Fotografias da cidade do Mindelo

       

O cais que os esperava era pequeno. A ilha tinha ares diferentes dos de Lisboa.  “O nível de pobreza era maior. As pessoas eram diferentes. Vestiam-se à maneira delas, com aquelas cores assim garridas, saias rodadas mais compridas.” A água potável era distribuída por um camião, “porque a água de lá era salobra”.

         A casa que alugaram albergava outra família de um marujo companheiro de José. Estar casada com um marinheiro era viver na incerteza: “Ao sair de casa, não sabia quando ia voltar.” Dos que estavam embarcados, só uma dúzia de pessoas tinha família lá, porque isso “significava ter uma casa em terra”. Nessa altura estava-se avisado que a qualquer momento poderiam ter de partir para uma missão, que podia durar oito dias. “Os familiares dos militares que estavam num navio. Sabiam que se voltavam voltavam, se não voltavam não voltavam.” Quando o marido partia, sabia-o. Conseguia ver de casa que “o navio tinha abalado” do porto.

Fotografias de José Serrano a ler na companhia dos seus companheiros

Acabava por fazer da vizinhança “companha”. Maria relembra uma moça nativa que morava na casa em frente à sua. Quando cozinhava cachupa, um prato típico, fazia questão de lhe levar um pouco: “Faziam a cachupa pobre e a rica. A pobre não levava nada para além do básico. A rica já levava carne e peixe, mas também era acompanhada de milho. E eu não gostava nada de milho. Era um sacrifício que eu fazia. Se ela me levasse e eu não provasse, parecia-lhe mal. Eu comia um bocadinho e dizia que guardava o resto para o meu marido.” Tomava conta do seu filho de dois anos, passeava perto do mar. Relembra que as praias “eram só pedras”, mas, em São Vicente, “havia uma língua de areia vinda do deserto” que visitavam frequentemente. Todos os percursos eram feitos a pé, mesmo aqueles que contavam com a presença de José, os carros que existiam na ilha transportavam apenas materiais.

         Ter o cônjuge em casa era sinónimo de descobrir mais a ilha. Iam ao mercado, onde o marisco era abundante, “muita sapateira e santola”, e o “peixe acabado de trazer era lindo” – mas não o conseguiam comer devido ao sabor amargoso do fénico. Viam filmes no cinema. Visitavam um jardim: “Por lá havia bailaricos, com música e danças, quizombas. Eu gostava de ir lá ver, de lá estar. Era assim que passávamos o tempo.”

Fotografias do casal com o filho

Em agosto, chega a altura de deixar a ilha e o seu marido. Embarca assim na última viagem que o Paquete. “Para mim custou-me muito a volta porque eu enjoei o caminho todo. Para lá eu ia contente, nem me lembrei cá dos enjoos nem das enjoas. Agora para cá, o filho chorava, não queria deixar o pai. Até se deixar dormir foi sempre chorando.” O tempo encarregar-se-ia de os voltar a reunir.

Artigo escrito por Mariana Serrano.

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