Vespa: “Lembro-me da guerra colonial porque bateu-nos em casa.” 

  

Aos 10 anos muitas são as coisas que nos passam ao lado e várias são as recordações que não guardamos.  Na década de 70, Arlindo Fragoso morava na Chamusca. Por tempos pensou que só dividia a casa com os pais. Mais tarde descobre uma memória levada pela Guerra Colonial.

         Viveu a sua juventude em ditadura. Lembra-se do pouco que era comentado em voz baixa nos momentos familiares, e das fotos alinhadas na sala de aula. Do período marcelista trouxe sobretudo as memórias contadas pelos seus pais sobre a ausência de direitos e de limites para as horas de trabalho. Recorda-se que lhe pediam que não apanhasse papeis subversivos do chão: “As organizações clandestinas espalhavam durante a noite folhetins para informar a população e denunciar as situações. E havia o medo que, quando a criança apanhasse inocentemente o papel do chão, e alguém visse. A situação tornava-se complicada”.

Exemplos de Folhetins deixados pelas ruas (Retirado da obra "Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes)

         Entre estas pequenas lembranças, surge uma mais forte. “Ninguém sabia bem o que se passava no ultramar, porque nós só conhecíamos aquilo que chegava. Lembro-me da guerra colonial porque bateu-nos em casa.” A partida para África era feita num paquete enorme que saía de Alcântara. Os adultos choravam, e as crianças não se apercebiam do que se estava a passar. Entendiam que eram familiares a ir-se embora, mas não entendiam o porquê do comportamento dos “crescidos”.

 

 

         Ouvia falar dos turras, mas não sabia o que eram. Os terroristas. Existiam publicações que o regime fazia em formatos de revista. As imagens eram fortes: “Corpos desmembrados, aldeias incendiadas. O que faziam os turras. Lembro-me de ver isto porque eram imagens muito gráficas, usadas pelo regime para dizer mal dos movimentos de libertação.” O tio enviava-lhes algumas fotografias, que andaram durante muito tempo nas  gavetas. Sobretudo retratos do convívio com os nativos locais e com os companheiros – com a pose e as armas na mão.

O irmão da sua mãe vivia lá em casa. “Antes de ir, era um jogador
de futebol na equipa da minha terra, e era um bom jogador. Um jovem como todos
os outros que iam para a guerra naquela altura.” Devido a um ferimento no
ultramar, sofreu uma amputação: “Perder uma perna naquelas circunstâncias… Ver
o coto – a parte da perna que restou – e a perna artificial feita ainda
com aquele material plástico, que mal articulava. Essas memórias para uma
criança com dez anos são muito marcantes.”

 

         Não tinha televisão em casa. Não havia jornais que chegassem àquela vila ribatejana. Ouvia-se a rádio. Pouco ou nada tinha visto do mundo, estava restrito ao que havia perto de si. Durante o tempo no hospital, o seu tio fez uma amizade com um companheiro que lá estava. Quando chegou à porta de casa, a cor escura da pele do soldado fez com que a criança fugisse. Chega a comparar que era tão escura quanto o carvão: “Fugi durante largos minutos sem perceber o que se estava a proceder.  Nunca tinha visto uma pessoa negra em toda a minha vida e aquela foi um tal surpresa, que eu não estava preparado.” Quando chamaram pelo seu nome, voltou: “O meu tio estava a cumprimentá-lo e a conversar. Percebi que não me faria mal. Voltei para ali para o pé deles, mas sempre com muito nervoso e com algum distanciamento.”

Amputado de Guerra e Aerograma enviado à família (Retirado da obra "Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes)

O retorno de alguém que perde um membro envolve mudanças. A esta altura, com as tecnologias pouco desenvolvidas, as adaptações passavam pelas mãos de quem ficava debilitado: “O meu tio quando voltou alterou uma motorizada pequena – uma vespa,  adaptada apenas para a perna que estava funcional.” Mudou o lado do travão, garantindo que conseguiria manter o controle. “Ele costumava colocar-me à frente dele na vespa.  A acelerar enquanto ele metia as mudanças. Íamos dar umas voltas valentes.” 

Artigo escrito por Mariana Serrano.

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