Visão “Bettencourtiana”

Tiago Bettencourt é cada vez mais conhecido em Portugal. Iniciou-se na banda Toranja e desde aí conseguiu obter um enorme sucesso a solo

No fim do concerto na redação do jornal Público, que tinha como intuito publicitar o seu mais recente álbum, A Procura, o artista reservou uns minutinhos para falar da sua opinião sobre a música nos dias de hoje, e como se vive da mesma em Portugal.

Depois de um showcase tão sereno…

Já são bastantes anos a pisar palcos. Ainda te sentes nervoso antes dos concertos?

Só pelo concerto em si já não fico. Estou bastante sereno, até. Nos concertos mais importantes, é possível que aconteça assim um nervosismo qualquer. Normalmente é quando são concertos para os quais ensaiámos coisas novas e tenho a sensação de que não estão bem ensaiadas.

Músicas de pastilha elástica com apenas um sabor

Qual é a tua opinião sobre a música na atualidade?

Hoje há a ideia de que uma banda é só uma coisa e não pode ser outra. Parece-me que as pessoas a deixam de ouvir quando ela muda. Põem-lhe um género de “carimbo” e acredita-se que ela não pode ser mais nada. E isso agonia-me; eu não consigo ser assim.

Parece que estamos sempre a ouvir a mesma música. Não percebo muito bem se isto acontece por pressão de editoras, se as próprias bandas são menos criativas, ou se é o público que está a levar toda a música para o mesmo lado. Isto faz com que a parte mágica da música seja completamente desprezada e banalizada.

Há muita gente a fazer muito boa música. Música esta que vai fazer muito melhor ao organismo do público do que essas músicas de “pastilha elástica” que hoje existem aos milhares. É preciso que o público seja muito mais curioso do que está a ser e que apoie mais estes artistas, que não conseguem chegar às rádios nem ao grande público. É difícil encher salas assim e manterem-se na música.

Preferes plateias grandes ou concertos mais intimistas?

O que acontece com a minha banda é que, se nós ficamos muito tempo a dar concertos intimistas em auditórios, apetece-nos ir lá para fora. Apetece-nos tocar rock‘n’roll, apetece-nos tocar alto.

Por exemplo, estivemos a ensaiar uma música nova na semana passada, e a música é completamente rock. Em auditórios é ótimo, mas depois chegamos a um palco grande e não podemos tocar o álbum novo [A Procura], porque é muito calmo. Este álbum é muito fechado, muito minimal, que é uma coisa que adoramos tocar também.

Percurso, Toranja e Tiago Bettencourt

Como é que resumirias o teu percurso no mundo da música? E como é que foi tomar a decisão arriscada de começar uma carreira a solo?

Eu, na minha juventude, estava a fazer música porque me fazia bem. Ficava muito feliz em casa a fazer música e, de repente, formei uma banda [Toranja], enquanto estava a fazer o meu curso de Arquitetura. Especialmente porque os meus pais não consideravam sequer a hipótese de eu ser músico. Estava completamente fora de questão, uma vez que era muito arriscado. Passados alguns bons anos, os Toranja já não estavam a resultar e o que íamos fazer a seguir não ia ser bom. A banda toda não estava de acordo com o passo a seguir. Por isso, não ia valer a pena. E, no fundo, as músicas dos Toranja eram as minhas músicas, portanto não arrisquei assim tanto. A única coisa em que arrisquei foi em ter de fazer o meu nome do princípio.

Vida na música ou música na vida

Tens algum conselho que possas dar a alguém que se queira iniciar no mundo da música?

Que o faça pela música. Que não pense em maneiras de conquistar o público ou de ganhar mais seguidores. Pense de que maneira é que a sua música o vai fazer sentir bem. O que se está a passar nesta “selva” é que a música está a ficar para segundo plano. Isto está a acontecer em todo o mundo, não só em Portugal. Ainda estava na esperança de que nos orgulhássemos mais da cultura europeia musical que existe, que é muito mais rica e interessante.

Eu acho que quem está na música não pode estar pelo dinheiro. Há dinheiro na música e percebe-se, por vários artistas, que eles só estão nesta área por essa razão. Parecem mais homens de negócios do que propriamente artistas. É fácil. Hoje em dia há fórmulas. Sabe-se o que os miúdos querem ouvir, e se fizerem música que eles vão ouvir os pais vão comprar os discos e os bilhetes para eles irem ver esses artistas. Há pessoas que têm mais jeito para serem figuras públicas que outras, mas um artista, na minha opinião, devia ter jeito para fazer música e não para se vender.

O showcase de Tiago Bettencourt foi em Lisboa, no auditório da redação do jornal Público, e durou cerca de 20 minutos.

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