VOXLisboa: cuidar, escutar, acompanhar

3.396. Era este o número de pessoas em condição sem-abrigo em Portugal Continental até maio de 2018. É o número mais recente avançado pela ENIPSSA (Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo) num relatório sobre um inquérito realizado em 2018. E onde se verifica a maioria das situações? Na Área Metropolitana de Lisboa, com uma percentagem 44% do total de pessoas em condição de sem-abrigo. O número é elevado – daí a importância das associações que trabalham para combater esta situação.

A VOXLisboa é uma associação de voluntariado que tem por missão contribuir para a saúde física, mental e social de pessoas em condição de sem-abrigo. Os voluntários prestam cuidados médicos, promovendo a companhia e o diálogo para estabelecer relações de amizade. É assim que tentam diminuir a solidão sentida na rua. Porquê “vox”? A palavra, proveniente do latim, significa voz, som, grito: é, deste modo, uma forma de expressarmos o que sentimos e pensamos. O que a VOXLisboa faz é deixar que essas vozes se expressem.

A associação, oficialmente formada em março de 2015, atua em três zonas de Lisboa – o Rossio, Santa Apolónia e a Gare do Oriente. A sua ação desenvolve-se em torno de saídas no âmbito de três projetos: Rua com Saúde, Rua com Saída e Bairro com Saúde. O primeiro reúne voluntários da área da saúde que promovem o bem-estar físico das pessoas em condição de sem-abrigo e ajudam a prevenir o surgimento de doenças. Além disso os voluntários promovem a conversa para tentar diminuir a solidão que as pessoas sentem. Este projeto está intimamente ligado ao segundo, Rua com Saída. Os voluntários que não são da área da saúde encontram o seu lugar neste projeto, cujo objetivo é desenvolver uma relação de amizade com as pessoas, através da companhia, da conversa, da escuta. O Bairro com Saúde junta voluntários da área da saúde que visitam pessoas idosas nas suas casas ou em espaços como centros de dia. O objetivo é prevenir doenças, prestar cuidados de saúde ou estabelecer uma conversa terapêutica.

Como surgiu a ideia? Juntaram-se 30 amigos, que já se conheciam de uma outra associação de voluntariado, mas que queriam ir mais longe. Desse desejo e da vontade de ajudar nasceu a VOXLisboa.

O presidente da VOXLisboa, Hugo Martins, especialista em medicina interna, conta-nos que o arranque do projeto se revelou fácil porque já tinham experiência no terreno. A associação foi-se distinguindo precisamente na área da saúde pelo facto de contar com médicos de várias áreas: de família, de medicina interna, de cardiologia. Isso permite-lhe dar respostas concretas e diretas ao que é preciso na rua.

Hugo Martins, no centro. (Departamento de Comunicação da VOXLisboa)

No contacto com as pessoas há um aspeto muito especial: a saúde é um quebra-gelo. Ao dizerem que são médicos, os voluntários facilmente iniciam uma conversa. É assim que procuram “humanizar e diminuir a solidão que as pessoas sentem na rua”, diz Hugo Martins.

A partir das relações que estabelecem com os sem-abrigo, os voluntários procuram que estes ganhem vontade de, se quiserem, ir a uma consulta ou ir para uma casa. Isto porque nem sempre as pessoas querem sair da rua, e “obrigá-las não é a solução”, salienta o voluntário da VOXLisboa. Apesar de a associação querer tirar as pessoas da rua, procura fazê-lo de forma “mais pensada, mais calma e mais humana”. Demora mais tempo, mas as pessoas que vão para uma casa já não voltam para a rua, afirma.

Apesar da assistência médica que providencia, a associação não conta só com médicos e enfermeiros. Qualquer um pode ser voluntário, independentemente da área. Como diz Hugo Martins, “conversar com as pessoas, estar com elas, isso também é promover a saúde”.

Alguém que se inscreva na VOXLisboa passa inicialmente por uma fase em que tem um tutor, alguém com experiência. Nesse período vai ser acompanhado por essa pessoa, que lhe vai dando algumas dicas. De resto já leva tudo o que é preciso – “uma voz, a capacidade de se relacionar, um coração bom, e naturalmente as coisas vão fluindo”, acrescenta o presidente da associação.

Atualmente a VOXLisboa conta com cerca de 30 a 40 voluntários. A principal dificuldade não é encontrá-los, mas mantê-los. E isso tem que ver com o tipo de voluntariado que fazem: “implica parar, falar com as pessoas, abrir o coração”. É exigente, podendo levar a uma exaustão que, mais do que física, é sobretudo psíquica. Daí as saídas acontecerem de 15 em 15 dias.

Segundas Jornadas Saúde Solidárias. (Departamento de Comunicação da VOXLisboa)

Inês Feio, finalista do curso de medicina, juntou-se à associação há dois anos. Conta que a experiência contribuiu, por um lado, para combater alguns dos preconceitos que tinha e, por outro lado, para facilitar a comunicação com uma população que é muitas vezes discriminada. Trata-se de um tipo de voluntariado diferente de outros que também fez, como dar explicações a crianças carenciadas. Na VOXLisboa, promover mudanças na saúde, orgânica e mental, é algo lento, menos palpável. Contudo, não considera que isso seja razão para desânimo. Pelo contrário, isso é o que a motiva a regressar. Na sua opinião, é como se, “numa consulta de Medicina Geral e Familiar, aparecesse o Sr. Fonseca, sempre aflito para respirar, mas que por nada deste mundo deixa de fumar”. A diferença está nos cenários e nos recursos. A essência do desafio, porém, é a mesma.

Inês Feio, voluntária da VOXLisboa (foto cedida pela própria)

Ana Cristina Fragoso, cocoordenadora do projeto Rua com Saída, é uma das associadas fundadoras da VOXLisboa. Antes de pertencer a esta associação já tinha feito voluntariado numa outra semelhante. Durante esse tempo percebeu que queria ir mais longe; a resposta surgiu com a formação da VOXLisboa.

Ana não é da área da saúde, mas do marketing. Contudo, isso não é um impedimento, porque a saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de doenças”, afirma, citando a Organização Mundial da Saúde. A voluntária dá-nos conta da importância de estabelecer uma relação com as pessoas em situação de sem-abrigo: elas estão isoladas devido à estigmatização da sociedade, a preconceitos como “os sem-abrigo não querem trabalhar” ou “os sem-abrigo são todos uns bêbados”; assim, os seus processos de relacionamento social são interrompidos devido às situações de carência física e emocional. Ao iniciar este tipo de voluntariado, percebeu que, realmente, o mais valioso era o compromisso: “a criação de laços de amizade e confiança, que advém da repetição, do acompanhamento e da escuta permanente.”

Ana Cristina Fragoso, voluntária da VOXLisboa (foto cedida pela própria)

Saída com a VOXLisboa

É na igreja da Sagrada Família do Calhariz, em Benfica, que se reúnem os voluntários, num espaço que lhes foi cedido. O edifício não corresponde à típica imagem que se tem de uma igreja. É antes um prédio alto e cinzento, que passa despercebido. A identificar a sua natureza está uma tabuleta verde, com uma cruz. É de lá que, aos sábados, de 15 em 15 dias, os voluntários partem em grupos para as ruas de Lisboa.

Igreja da Sagrada Família do Calhariz, em Benfica. (ADRIANA ALVES/8ª COLINA)
Espaço onde se reúnem os voluntários. (ADRIANA ALVES/8ª COLINA)

Antes de partirmos, duas coordenadoras, a Inês Venância e a Teresa Bruno, explicam ao 8ª Colina o trabalho que a associação desenvolve e dão alguns conselhos sobre como agir, o que dizer e não dizer. Por fim, vestimos um colete (azul, porque integramos o projeto Rua com Saída), colocamos ao pescoço um fio com um cartão de identificação e partimos. Formam-se dois grupos de cinco elementos; um vai para o Rossio e o outro, o nosso, dirige-se à Gare do Oriente.

Chegamos ao nosso destino por volta das oito da noite. Ainda é de dia. O primeiro passo da associação é procurar pessoas em condição de sem-abrigo. Começamos pelo Pavilhão de Portugal. Inicialmente não avistamos ninguém: os bancos estão vazios. Decidimos dar mais uma volta; caso não encontremos ninguém, juntamo-nos ao grupo que foi para o Rossio. Acaba por não ser preciso – ao espreitar para um corredor escuro, vemos um homem sentado no chão, a falar ao telemóvel. Avançamos ao seu encontro e cumprimentamo-lo. O homem termina a chamada e devolve-nos um “boa noite”. Tem uma compleição magra, cabelos acinzentados, e os ténis amarelos fluorescentes contrastam com a negridão em redor. Não está sozinho: junto dele, sentada entre cobertores, há uma mulher. O cabelo castanho-escuro, saindo debaixo de um chapéu branco, cai-lhe pelos ombros. Tem um ar cansado e a voz sai-lhe lentamente. Descobrimos que com eles está ainda outro companheiro: um gato cinzento, pequeno e brincalhão.

O homem pergunta-nos se trazemos comida. Não temos, mas a comunidade Vida e Paz, que faz distribuição de alimentos, não tardará a chegar. Trazemos, porém, chá e dois dedos de conversa. Aceitam ambos.

O chá é outro quebra-gelo da associação para começar a conversa. Funciona na perfeição. Juntamente com uma voluntária, falamos com o homem, enquanto as duas médicas do grupo dedicam a sua atenção à mulher, que se queixa de uma dor na perna. A conversa com o homem é superficial. Falamos sobre o tempo, sobre o gato e pouco mais. O homem mostra intenção de querer ir dormir, por isso acabamos por não ficar muito tempo. Ouve-se uma carrinha a aproximar-se: é da comunidade Vida e Paz, que vem distribuir refeições. Damos a visita por terminada. Despedimo-nos e continuamos o nosso caminho.

A paragem seguinte acaba por não ser longe dali. Ocultados por um conjunto de árvores, cinco homens resguardam-se perto de um “vulcão de água”. Vamos ao seu encontro.

– Então e o Jorge? – pergunta um ao ver-nos aproximar.

– Não pôde vir – responde uma das voluntárias. Aparentemente, já há uma história com algumas pessoas do grupo.

Os homens recusam o chá, mas aceitam prontamente conversar. A partir daqui é dividir e conquistar: as duas médicas prestam alguns cuidados necessários, enquanto nós, juntamente com as restantes voluntárias, conversamos com eles. Um pouco relutantes ao início, lá puxamos conversa com um deles. Tem o cabelo e barba meio grisalhos e um rosto simpático. Está descalço mas, curiosamente, tem um par de ténis ao seu lado. A pergunta óbvia surge: “Não tem frio nos pés?” Responde que não: tinha estado a lavá-los, juntamente com as meias. Estão na “máquina de secar”, diz na brincadeira. Uma gargalhada. É fácil conversar. Pouco a pouco, vai revelando parte da sua história: a família, os sítios onde viveu, os lugares onde trabalhou, o cão que foi propositadamente comprar a Espanha. 

Ali recolhidos do exterior, parecem estar num lugar à parte. A uma curta distância, grupos de transeuntes passeiam e riem despreocupadamente, trotinetes passam velozes, toca música alta, provavelmente de algum bar ou festa. E, passando a linha das árvores, um grupo conversa animadamente.

A luz do dia vai-se esvaindo devagarinho, o tempo vai passando rapidamente. A conversa ter-se-ia prolongado, mas já são onze da noite, altura em que normalmente se dá por terminada a noite. Despedimo-nos com um aperto de mão, um “boa noite”, e partimos.

Grupo que o 8ª Colina acompanhou na saída com a VOXLisboa: Inês Feio, Cecília Perdigão, Inês Venâncio e Marina Cortes. (ADRIANA ALVES/8ª COLINA)

O trabalho dos voluntários da VOXLisboa não é fácil, é cansativo e exige um grande compromisso com as pessoas que encontram. Algumas delas conhecem bem os voluntários e já estão à espera de vê-los quando saem. Duas semanas depois da saída anterior, conhecemos Beatriz, no Rossio. Sentada, encostada a um elevador, Beatriz espera, tal como o restante grupo de pessoas que ali se juntou, a chegada de uma carrinha da associação Casa, que trará comida. A noite está fria. Ela abriga-se num longo e quente casaco castanho; na cabeça tem um lenço rosa que lhe cobre os cabelos. O rosto é simpático, com algumas rugas aqui e ali, e a voz suave. Conta-nos que já conhece a VOXLisboa e os seus voluntários há alguns anos. Não os via há algum tempo e por isso vê-los ali é uma boa surpresa; é sempre bom quando aparecem. Gosta muito da companhia dos voluntários e insiste para que continuem a aparecer sempre que puderem.

Luís é outro dos beneficiários da ação da VOXLisboa. É um apaixonado por história, que a associação também já conhece e acompanha há algum tempo. “Quando chego, medem-me logo tudo”, conta. Uma voluntária acabara de lhe medir a tensão. De estatura baixa e cabelo cinzento, é um homem bem-disposto e brincalhão. Acha muito bem o que os voluntários fazem – dão do seu tempo para estar ali. Na sua opinião, “só é pena não irem todas as semanas”.  

A VOXLisboa faz um trabalho que se distingue pelas relações que estabelece com as pessoas que acompanha. O 8ª Colina teve a oportunidade de o presenciar nas duas saídas em que participou e viu como se criam amizades nos cenários mais improváveis. Ao trabalho que outras instituições fazem – distribuindo roupas e alimentos ou ajudando a encontrar casa –, a VOXLisboa vem acrescentar a dimensão relacional, que é igualmente necessária. É isso que os voluntários da VOXLisboa fazem, oferecendo o seu tempo, a sua amizade e um chá.

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